20.03 Encontro Psicanalítico com a Febrapsi / SPRPE / SPFOR

Febrapsi faz em Recife preparatória para o IV Congresso de Psicanálise em Língua Portuguesa e o XXVII Congresso Brasileiro de Psicanálise

 

[…] quando as forças psíquicas contrárias que normalmente a inibem se encontram fora de ação, ela [agressividade] também se manifesta espontaneamente e revela o homem como uma besta selvagem, a que a consideração para com sua própria espécie é algo estranho (Freud, 1930).   

 

Pernambuco, Recife, 28/04/2018: neste dia, a Febrapsi, em parceria com a SPRPE e a SPFOR, colocará em pauta para discussão a temática de nossos dois Congressos, o de Língua Portuguesa – Rotas da Escravidão – e o Brasileiro de Psicanálise – O Estranho – Inconfidências.

Estes temas visam fazer pensar, lançar um olhar e uma escuta para os estranhos caminhos percorridos pelas rotas da escravidão: condição necessária para o acontecer de inconfidências, movimentos que propõem ao sujeito ser o editor da sua carta de alforria, precondição para o emergir de confidências – os mistérios da alma. Esses caminhos estão associados à nossa história, como indivíduos e seu mundo inconsciente, movidos por desejos confessáveis e inconfessáveis, e como seres da cultura, movidos por princípios morais e éticos. Princípios que estão sob constante impacto da destrutividade, que constitui o bicho homem – o mal radical (Freud, 1930).

Os preconceitos com seus derivativos estão na ordem do dia: a consideração para com sua própria espécie é algo estranho. Estamos diante de um passado que está impossibilitado de se fazer passado. Inquietante constatação. Seguimos escravos da lógica escravocrata narrada em Casa Grande e Senzala? Estamos diante do estranho retorno do mesmo? Trata-se de vivências que remetem para o além do princípio do prazer? Se assim o for, o convite é fazer uma interlocução com a crueldade que, sinistramente, faz morada em nossa psique, e sem pedir licença apresenta-se em nossa vida cotidiana – a besta selvagem.  E denuncia uma cisão niilista entre o bem e o mau, o belo e o feio, o certo e o errado, o forte e o fraco, o negro e o branco, o senhor e o escravo. Essas cisões são geradoras de pensamentos ideológicos, que retratam um dos ápices do repúdio do feminino (Freud, 1937).

Seguindo pelas tortuosas rotas que integram e desintegram nossas temáticas – escravidão, estranho, inconfidências –, temos a oportunidade de referendar que O Estranho, texto centenário freudiano que trata do conhecido/desconhecido, faz-se agente de comunicação e nos confronta com nossas vulnerabilidades e, curiosamente, com nossas potencialidades.

Sabe-se que o estranho, quando devidamente apropriado pelo sujeito, comporta cumprir sua função libertadora que impulsiona a criação. A efemeridade da vida, a grande ferida narcísica do humano, ao se fazer história, transforma o passado e convida o presente/futuro para avançar por repetições que trilhem novas rotas para o pulsional com seu potencial representacional. São contingências que nos interpelam para a construção de um novo tempo, onde se possa instaurar Eros, como força inibidora da pulsão de morte desgarrada.

Aguardamos vocês, tendo como perspectiva a posição freudiana: quando alguém fala, fica mais claro (1905). 

Até breve.

Ignácio Paim Filho

Diretor Científico da Febrapsi