10.03 SBPRP organiza encontro preparatório para Congresso Brasileiro da Febrapsi, nos dias 5 e 6 de abril

XXVII Congresso Brasileiro de Psicanálise – 2019

O Estranho – Inconfidências

Para minha velhice escolhi o tema da morte. Defrontei-me com uma noção notável baseada em minha teoria das pulsões e agora preciso ler todo o tipo de coisa a ela pertinente, como por exemplo, Schopenhauer, pela primeira vez. Mas não gosto de ler. (Freud a Salomé 01/08/ 1919).    

São Paulo, Ribeirão Preto, 05 e 06 de abril de 2019: a FEBRAPSI e a Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto promoverão nesta data uma atividade conjunta, visando trabalhar a temática do próximo congresso brasileiro, que ocorrerá em Belo Horizonte, de 19 a 22 de junho de 2019.

Sabemos que, com Das Unheimliche, a estética do além do belo ganha sentidos que vão reverberar nas palavras de Freud em 1919. Palavras que convidam à interlocução entre a clínica – via o traumático da compulsão à repetição – e a cultura – o realismo fantástico de Hoffman. Freud toma por condutor o estranho, com sua peculiar gramática: fluxo profícuo, por vezes soturno, entre representável e o irrepresentável, uma possibilidade de ruptura e exploração do impenetrável que o heimliche comporta. Tempo de fazermos inconfidências metapsicológicas? A clínica, a eterna inconfidente, segue sendo escutada, com suas novas roupagens, em tempos da sociedade do cansaço (Hans, 2010)?

Freud pretende fazer desse substantivo, com seus adjetivos, um conceito específico, que permita certo grau de individualidade no seio da angústia: Gostaríamos de saber que núcleo comum é esse, que talvez permita distinguir um “inquietante” no interior do angustiante (Freud, 1919). Tal pretensão se faz justificável, na medida em que a compreendemos como um indicador precioso para discriminar, qualificar percepções em meio ao turbilhão das intensidades – noção notável. Em vias de constituir-se estava a pulsão de destruição, modificando o rumo da história.

O estranho carrega consigo sensações que demandam reflexões, carregadas de obscuridades, que suportam o conhecido/desconhecido no retorno do recalcado e o desconhecido na repetição pulsional: numa interação rítmica entre o corpo e a alma. Contexto facilitador para acirrar a conexão com os impulsos emocionais não dominados, porém, não desligados.

Sendo assim, diferentemente do angustiante com sua força mais desgarrada, que impele muitas vezes ao ato, os estranhamentos mantêm seu compromisso de instigar o trabalho do feminino – entre o fascínio do não saber e o horror a saber, sobre as peripécias da transitoriedade – que o permanente interrogar do Unheimliche sustenta: que sensação é essa? A partícula “Un”, enquanto marca do não do recalque, requer ser repensada à luz do estranho e paradoxal texto de Freud de 1925, A negativa? Mas ­– disse Freud – não gosto de ler. Sinistra constatação: o não que encobre um sim.

Estas, entre muitas perguntas, serão a tônica de nosso encontro, agora no nordeste do Estado de São Paulo. Um encontro que pretende promover um livre associar, visando ampliar a nossa capacidade de seguir mantendo frutífero diálogo entre a psicanálise, a clínica, com seus pensadores inconfidentes – ler Schopenhauer pela primeira vez – e nossa ordem social.

Nesse sentido, como um convite à interlocução, mais além de nossas fronteiras, remeto ao comentário de Freud no Estudo Autobiográfico:

O alto grau em que a psicanálise coincide com a filosofia de Schopenhauer – ele não somente afirma o domínio das emoções e suprema importância da sexualidade, mas também estava até cônscio do mecanismo do recalque. […] Li Schopenhauer muito tarde em minha vida (Freud, 1925). 

Esperamos vocês.

Ignácio Paim

Diretor Científico da FEBRAPSI