18.04.19 Observatório Psicanalítico – 102/2019

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

Cafarnaum – É aqui e agora…
Dora Tognoll (SBPSP)

Zain, um garoto de 12 anos, abre o enredo, adentrando num tribunal onde, de réu, transforma-se em acusador: acusa seus pais, por terem lhe dado a vida. De trás para frente, vamos acompanhá-lo em casa, na família, na cidade, no comércio, no tráfico, entre conhecidos e estranhos, libaneses e refugiados; enfim, uma trajetória arrebatadora de um menino tão pequeno, protagonista e portador da rede simbólica que escapa a todos.

O filme recente de Nadine Labaki recebe o nome de uma cidade bíblica, hoje sítio arqueológico em Israel, que, no contexto, ganha o sentido de caos. Filmado no Líbano, tem a potência de representar muitas de nossas cidades: não é necessário estarmos ou conhecermos a realidade do Líbano para nos conectarmos à trajetória de Zain.

Somos testemunhas de um universo atroz, sem fronteiras, sem leis, sem dignidade: um caos, como o nome do filme prenuncia. Somos lançados no desamparo e na angústia que acompanha Zain, onde quer que ele ande.
A precariedade do lar de Zain – sujo, caótico, sem rotinas, sem lugar, sem aconchego, sem amor, entrelaça-se com a precariedade das ruas e da cidade. O protagonista nos apresenta sua infância roubada, onde tem que trabalhar duro para contribuir com os pais, tão desamparados quanto ele.

No meio dessa barafunda, localizamos um laço de afeto e companheirismo, entre Zain e a irmã mais velha, mas também criança. Ao perceber o sangue da menstruação que mancha a cama onde os dois se deitam, Zain se dá conta de mais um perigo: tornar-se mulher, nesse lugar distópico, coloca a irmã em risco. Seu corpo frágil, maltratado, pode agora ser violentado pelo sexo hostil de algum adulto que vai destituí-la do pouco que ela tem.

A profecia se realiza: a irmã de Zain é entregue a um homem e o garoto não se conforma com a passividade dos pais, que comemoram essas bodas. Zain deixa a casa, sob um manto de revolta. Desfecho trágico: em breve, a irmã morrerá, vítima de uma violência que seu corpo não suportou, levando o protagonista a cometer um crime que o conduz à prisão.

A peregrinação do pequeno herói vai nos apresentar a muitos grupos tão desamparados quanto ele. O convívio com refugiados aproxima as realidades dos locais/nativos e dos estrangeiros. Não há lugar para esses corpos errantes, que vão se reduzindo às necessidades básicas de sobrevivência.

O encontro de Zain com uma refugiada africana, etíope, mãe de um bebê de quem cuida com carinho e amor, que o esconde no banheiro, dentro de uma cesta, para conseguir trabalhar, configura um outro lar.

Zain passa a cuidar desse pequeno ser, e assistimos a cenas poéticas e desalentadoras, nas quais Zain tentará suprir o mínimo que o bebê precisa: a alimentação improvisada desse bebê indefeso; o roubo de cenas de uma TV de um vizinho, através de uma engenhoca que Zain constrói com espelhos para distrair o pequeno e a si mesmo, para enfrentar um dia longo num casebre; o transporte que Zain improvisa com baldes e canos para sair na rua com esse filhote que ainda não sabe caminhar…

E segue Zain, vendendo drogas a grupos de homens, descobrindo o preparo de substâncias ilícitas que lhe rendem dinheiro. Um “menino sábio”, uma “infância roubada”.

O desaparecimento da refugiada, agora presa, mais uma vez ressignifica e piora o desamparo crônico dessas gentes, e Zain se enfurece duplamente: pelo sumiço da etíope, pela morte mal explicada, quase negada, da irmã. Seu ato violento convoca a lei e o direito à vida digna.

A infância é objeto da Psicanálise: enquanto etapa de desenvolvimento, e no sentido de um “infantil”, presente em todos nós, lugar de desamparo e dependência de um outro, mais preparado e disponível para acolher nossas demandas.

O filme Cafarnaum expõe doloridamente esse lugar de desamparo: na figura do garoto de 12 anos, de sua irmã, do bebê do qual ele se incumbe; e na figura dos adultos, também desamparados – inibidos em sua função parental, ou violentos quando desejam o corpo das meninas para consumo rápido.

Num certo momento, o filme confronta a vida de Zain com a de crianças que passam numa van escolar. Ele as observa com um olhar triste e esperançoso, quiçá. Era lá que ele deveria estar se preparando para aprender, virar gente grande: a escola, como representante de um lugar seguro, composta de adultos acolhedores e que darão lugar à infância e seu porvir.

No momento, discute-se, no Brasil, um projeto que visa garantir a educação de crianças pelas famílias, longe das escolas que se encontram distantes, geograficamente. Ficam muitas questões: até que ponto não estamos legitimando a falência das escolas, como lugar de convívio, de cidadania? Até que ponto as famílias estão preparadas para enfrentar o desamparo e o despreparo de seus filhos, que também lhes acompanha? Até que ponto nossa civilização pode se dedicar a oferecer esse lugar de troca, de convívio, de cidadania e dignidade?

Há um certo absurdo enraizado nas cenas banais do lar de Zain, nas tomadas aéreas das ruas, na vida sofrida do garoto, mas sabemos que esse absurdo tem acompanhado muitas das cenas que vivemos ultimamente. O filme espelha, portanto, uma certa realidade, que erige fronteiras de hostilidade, de violência, de carestia, mas não tem recursos para erigir fronteiras de proteção, de cuidados com a infância e com o infantil.

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