06.06.19 Observatório Psicanalítico – 108/2019

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

Traumas que ficam…

Maria Cecília Pereira da Silva (SBPSP)

“Aqui pude falar como em lugar algum… Obrigada… Muito Obrigada…” – Sra. R., mãe de duas meninas com marcas dos conflitos na Síria.

As situações traumáticas deixam marcas encriptadas, geralmente silenciadas e impossíveis de serem simbolizadas. Se não forem elaboradas serão transmitidas às futuras gerações.

As marcas deixadas pelas guerras, pelos campos de concentração, pela ditadura, por situações de migração forçada, não processadas, estão presentes em muitas famílias brasileiras.

Nas últimas eleições muitas memórias foram desencriptadas. Tumbas foram revolvidas. Manter as lembranças vivas de situações históricas que ultrapassaram o respeito aos direitos humanos é uma forma de impedir que elas se repitam.

Na Clínica Transcultural do Centro de Atendimento Psicanalítico da SBPSP temos recebido famílias bolivianas, sírias e africanas. Os pais e as crianças relatam na lingua materna suas histórias de migração, repletas de sofrimentos físicos e psíquicos.

A possibilidade dessas famílias de refugiados contarem sua dor em sua língua materna, graças à presença de uma tradutora, e com a continência e a reverie de uma equipe expandida de terapeutas, que compõem o setting desta clínica, favorece a elaboração dos traumas presentes na situação de migração.

A Sra. R. é uma refugiada síria. Quando perguntamos a respeito de sua vida na terra natal, sua resposta nos surpreendeu e emocionou devido à extrema violência. Ela fugiu, com ajuda do consulado brasileiro na fronteira com o Líbano, com suas duas filhas. Foi após um ataque em que todas foram feridas por estilhaços de uma bomba. Sua filha mais velha perdeu a visão de um dos olhos e a caçula teve o intestino perfurado e uma de suas coxas perdeu parte da massa muscular. A Sra. R. perdeu a sensibilidade de uma das mãos, o que a impediu de ficar em um emprego que exigia trabalho manual. As três ficaram internadas juntas num hospital por três meses e não se largavam. Aterrorizada diante de maus tratos de seu marido e da violência da guerra, ela veio para o Brasil sem deixar aviso prévio.

Em São Paulo, foi acolhida por sua mãe, que tem problemas de saúde, também a maltrata e não tem paciência com as crianças, pela comunidade árabe, que fica distante de sua casa, e pela Ong IKMR (I know my rights) que se dedica especificamente das dificuldades pedagógicas de crianças refugiadas. Foi essa instituição, sem fins lucrativos, que nos encaminhou a família, ao constatar o sofrimento das crianças.

Durante parte da nossa primeira conversa escutamos seu relato a respeito dos problemas de saúde das três. A Sra. R. descreveu um a um, talvez por ser mais fácil falar de problemas físicos ou por acreditar que era o que deveria ser contado: sua filha mais velha sente vergonha de seu olho e se esconde na escola e sua caçula tem cicatrizes que, conforme a mãe teme, a deixarão mais traumatizada quando crescer.

Ela nos contou que é a filha mais velha e professora de história e geografia, tem ainda uma irmã e um irmão. Segundo ela todos tem uma relação normal com a mãe, mas a sua é um horror. Sempre foi maltratada, nunca teve carinho. Casou-se para fugir da mãe, mas foi morar na casa dela. Há 30 anos é o mesmo problema. Atualmente  moram com sua mãe, que chegou ao Brasil um ano antes delas, moram longe da colônia árabe e não tem amigos. As meninas sentem falta do pai, pois há 2 anos não têm qualquer notícia, nem foto dele. Ela imagina que as meninas nem se recordam direito dele. A Sra. R. queixa-se muito da relação ruim com sua mãe e fala que seu pai era bom, mas também batia na mãe na frente das crianças. Quando ele ficou doente, ela cuidou dele até sua morte.

Todo seu desamparo transborda na consulta e todas nós ficamos tocadas.

Ao longo da consulta as meninas brincam e prestam muita atenção no desabafo da mãe. Elas desenham e surge uma figura feminina bem grande e colorida que denominam de mãe. Chamou nossa atenção a expressividade gráfica dos desenhos das crianças. Apesar do choro constante ao nos contar sua história, apontamos como as crianças podiam vê-la como uma figura forte, viva, afetiva e muito próxima delas.

No setting da Clínica Transcultural, a equipe de terapeutas a partir de um trabalho interno de continência e reverie, abdicam de seus próprios valores culturais e pré-concepções, e procuram transformar em sonhos as experiências traumáticas relatadas pelas famílias. Esses sonhos/pensamentos alfa são oferecidos ao grupo e transmitidos à família pela terapeuta principal.

As terapeutas auxiliares, que se ocupam das crianças, procuram ser interlocutoras dos aspectos emocionais que se apresentam por meio dos desenhos e do brincar durante as consultas.

Neste setting, a Sra. R. pôde falar de seus medos aterrorizantes e da insegurança em relação à sua capacidade de poder dar conta da tarefa de educar suas filhas. Falou de seu medo de não ser uma boa mãe. Tem se sentido sem condições e queria muito ouvir de nós a confirmação de seus recursos.  Ficou muito feliz quando ouviu que, apesar de todo sofrimento, as meninas estavam brincando, com capacidade amorosa, distribuindo comida.

Seu desejo de esquecer o passado está presente durante as consultas, mas seu cotidiano com desentendimentos com sua mãe e as brigas entre as crianças a faz lembrar da mãe que desejaríamos ter e das violências vividas desde a infância.
Ao final a Sra. R.  sentiu-se muito feliz com a acolhida, com a sensação de ter encontrado ajuda para dar conta dessa enorme tarefa e diz: “Aqui pude falar como em lugar algum… Obrigada… Muito Obrigada…”

Com este trabalho, a elaboração das situações traumáticas vividas por essas famílias podem ser resignificadas, impedindo a transmissão para as futuras gerações, ao mesmo tempo que, seguindo o fio de suas origens, resgatamos os valores culturais de sua terra natal.

Abaixo segue o link do vídeo-acontecimento de Hilda Catz, psicanalista da APA, que inspirou o convite de escrita desse texto. 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).