17.06.19 Observatório Psicanalítico – 109/2019

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo. 

Por um pouco de humor

Roosevelt Cassorla (SBPSP/GEPCampinas)

Salta à vista a falta de humor no Brasil atual.  O humor denuncia, em forma instantânea, as mazelas institucionais. Evidentemente, nas ditaduras – sutis ou manifestas – o humor passa a ser, por vezes, a forma de resistência possível. A população subjugada se sente unida e pensante.

Proponho que a falta de humor assinala a perplexidade frente aos traumas imediatos. Enquanto eles não são defrontados e digeridos vivemos o Unheimlich. Estranheza, inquietação, sensação de perigo, paralisia.

Os mais velhos se lembram das inúmeras piadas com as quais nos consolávamos de nossa impotência frente a governantes donos da verdade. Charles Chaplin imitando Hitler, o Pasquim nos divertindo com piadas sobre o regime militar. O Charlie Hebdo, cujas sátiras conhecemos depois que foi arrasado. Lembro-me de uma delas: “O ditador (homofóbico, como todo ditador) chega para uma visita aos EUA. Fica horrorizado com a faixa “Wellcome presidente” e pede, desesperadamente, que prendam o “Well”. Logo a piada (contra um ditador de direita) foi apropriada e aplicada ao líder cubano.

Os preconceitos fanáticos são distribuídos democraticamente nos dois extremos…. 

Outra piada: “Quando Geisel (de confissão luterana) assumiu a presidência dizia-se que pela primeira vez tínhamos um presidente filho de um pastor alemão”. Curiosamente, mesmo naquela época, o humor estava presente e todo político (desde que não muito paranoico) sabe que levar os ataques bem humorados com humor o torna mais humano e popular. Mas, em algum momento, o Pasquim não pôde continuar.

Lembremo-nos de Freud. Após um interrogatório efetuado pelo regime nazista foi-lhe solicitado que assinasse uma declaração afirmando que fora bem tratado. Ele não só a assinou com reforçou o pedido, escrevendo algo como “Aproveito a ocasião para recomendar fortemente a Gestapo”.

O mesmo Freud nos conta a piada do corretor de seguros ateu que estava à morte. A família, temente a Deus, estava apavorada com a possibilidade que seu parente morresse sem se confessar. Chama um padre.. Este entra no quarto do moribundo enquanto a família espera ansiosamente. Passam-se minutos.., horas… Finalmente, o religioso sai do quarto, com uma expressão feliz. A família indaga: “Então, padre, deu certo ? Ele se converteu ?”. O padre responde: “Não… mas fiz um ótimo negócio. Comprei fantásticas apólices de seguro para toda minha congregação”. 

Quando dois fanáticos encontram uma brecha para negociar, a esperança renasce….

O termo Fanático provém de Fanus, do latim Templo. O Fanático era o guardião do templo que se dedicava a um único Deus (lembremos que os romanos tinham muitos deuses). Aos poucos o termo se ampliou para alguém que se sente freneticamente dono da Verdade Única e que usa qualquer meio para convencer os demais. Os não adeptos serão seduzidos. Se isso não funcionar serão difamados, caluniados, ameaçados, torturados, mortos. No fundo, o fanático é um paranoico perverso que se sente fragilizado frente ao diferente.

O Fanático não sabe rir, não tem humor. Ele tem um discurso solene, sério, imutável, pleno de supostas verdades (que buscam esconder sua paranoia). Em um grupo abortará qualquer nova ideia. Se você sorrir durante a pregação fanática, o fanático ficará furioso.  Se você brincar com sua fúria, corre risco de violência….. É claro que isso não ocorre em grupos psicanalíticos, porque todos somos muito bem analisados… (Não sei porque sinto a necessidade  de explicar que se trata de uma ironia… os colegas psicanalistas poderão fazer hipóteses sobre essa necessidade…).

O Fanático, no fundo, é muito engraçado para o observador. Sua seriedade e lógica estúpida é divertida, não fosse tão perigosa. . No fundo, o fanático intui seu ridículo. Por isso fica tão bravo, ressentido e odiento.

O Fanático mais estúpido nos faz gargalhar, quando vemos as trapalhadas que conduz, metendo os pés pelas mãos, em um enredo tipo “Os Trapalhões”, que costuma terminar com sua autodestruição. As “piadas prontas”, como diz o filósofo José Simão.  Tudo isso se mistura com a esperança de que, logo, nos livraremos dele. Evidentemente, em sua estupidez, o fanático pode perder a cabeça e vingar-se em forma terrível… Portanto, também há que leva-lo a sério…

Há que cuidar-se para que o “politicamente correto” não se transforme também em Fanatismo, impedindo que se possa brincar amorosamente com o diferente.

Por vezes, quando o Fanatismo coexiste com uma parte mais sadia da mente, pode ocorrer o que nos descreve Amós Oz (uso minhas palavras). Um escritor (judeu) estava em um táxi, em Israel, e o chofer comentava sobre o conflito entre árabes e judeus. Dizia ele que a única solução possível seria matar todos os árabes. O escritor lhe pergunta. “E como os árabes seriam mortos ?”.  O motorista afirma que todo judeu deveria matar um árabe. O escritor continua. “E como seriam mortos ?”. O motorista: “de qualquer forma, tiros, facadas, bombas”. O escritor: “imaginemos então que no prédio em que v. mora exista uma família árabe, você entra lá e mata todos”. O motorista concorda vacilante.  O escritor continua: “imaginemos então que v. matou toda a família e, quando v. já está se afastando, ouve um choro de bebê, que sobreviveu porque v. não viu.. O que v. faz ?”. O motorista retruca:: “como o sr. é cruel !!!”

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