09.08.19 Observatório Psicanalítico – 114/2019

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

 

Um congresso inquietante, perturbador e amorosamente feminino

Paola Amendoeira (SPBsb) 

Ao buscar aprofundar sua compreensão sobre a dinâmica inconsciente do Complexo de Édipo, Freud assumia que para ele era muito difícil compreender, mais profundamente, este complexo nas mulheres e que isso só seria possível quando elas se tornassem psicanalistas e pudessem usar os insights obtidos nas suas análises para ampliar nosso conhecimento sobre o psiquismo feminino.

 

Neste aspecto, Freud foi um grande estimulador para que as mulheres estão exercessem a Psicanálise.

 

O nosso Congresso trouxe grandes contribuições ao tema do feminino.

Uma curiosidade: em evento realizado pelo Museu Freud, durante o Congresso em Londres, para comemorar os cem anos do International Journal of Psychoanalysis, fomos todos surpreendidos por uma novidade – o famoso e único divã que Freud teve, foi dado a ele por uma paciente. Ele o aceitou e quando ela se deitou disse que este sim era o mobiliário adequado para ouvir as mulheres e não aquelas desconfortáveis macas médicas que usava.

 

Trago este relato como um chamado para que possamos retomar uma inquietação que parecia estar adormecida mas que vemos voltar a ganhar espaço em nossos círculos. Tanto no Congresso da FEBRAPSI  realizado em junho em BH quanto no Congresso da IPA, no mês de julho em Londres, as mesas voltadas à possibilidade de compreensão e inserção da Psicanálise nas comunidades, nas quais estamos inseridos, eram numerosas e contavam com um público ativo.

 

O mundo está num looping acelerado! O que antes parecia terreno seguro vem se desfazendo no ar. Somos tomados por um sentimento de impotência frente aos rumos que o mundo vem tomando.

 

Em muitas mesas foi levantada a preocupação com um recrudescimento de um tipo de pensamento que não considera os direitos humanos como uma categoria necessária, desejável e possível. Este pensamento inviabiliza o encontro e a possibilidade de desenvolvimento de um vínculo emocional, sempre necessário ao desenvolvimento humano.

 

Por outro lado, foi no bojo de transformações sociais, muito parecidas com as que estamos vivendo hoje, que Freud desenvolveu a Psicanálise como a ciência do homem. Deixou de observar os sintomas histéricos apenas como sinais e foi escutar o sofrimento daquelas mulheres.

 

Voltamos a sentir a necessidade de levarmos nosso divã para passear no mundo em que vivemos e não o deixar apenas restrito às nossas salas de atendimento. Um divã imaginário, com uma magnitude de sofrimento que nos convoca e envolve, na busca de acolher o humano. Temos muito a oferecer, e a aprender também, ampliando e desenvolvendo nossa ciência.

 

O espaço é curto e poderemos ampliá-lo a partir das contribuições que este texto suscitar. Vou falar de alguns temas debatidos que assisti, ciente que não poderei abarcar todos.

 

David Morgan trouxe seu trabalho de cinco anos num centro de refugiados no qual observou que eram numerosos os abusos contra as mulheres. Como a psicanálise pode intervir? São pessoas aterrorizadas! Como ajudá-las a simbolizar a dor que é presente e elaborar o trauma? Lançou um livro falando de sua experiência e na contracapa, entre outras, nossa Marielle Franco é lembrada e o livro é a ela dedicado.

 

O que estamos vivendo em nosso país está sendo vivido também mundo afora. Estamos e estejamos atentos!

 

Johanna Mendoza da SPP (Peru) fala do quanto seu país é carente e do quanto as dificuldades presentes facilitam as catástrofes sociais. Em suas palavras: ‘Na realidade, a realidade é pior que a fantasia’.

 

Vivian Pender levantou questões importantes a respeito do tráfico de pessoas. Hoje, um crime de escala mundial, atingindo principalmente mulheres e crianças. É a atividade de maior crescimento das organizações criminosas transnacionais. Apesar de tão comum, sofre uma espécie de invisibilidade. Por que, se está de um modo ou de outro presente em todo lugar?

 

Quanto à questão do feminino, chama a atenção que se passaram 110 anos até que a nossa IPA tivesse uma mulher como presidente. Virginia Ungar e a comunidade psicanalítica organizaram um Congresso onde o feminino pode ser abordado em suas múltiplas faces e apresentado em suas múltiplas línguas. 

 

Passamos quase uma semana, homens e mulheres, psicanalistas, trocando, aprofundando, compartilhando inquietações, curiosidades, vivências, experiências. No próximo, o convite é para pensarmos o infantil e suas múltiplas dimensões.

 

A IPA, atenta às suas raízes iluministas e centradas no homem, estabeleceu uma tábua de valores para seus membros: Princípios Éticos da IPA, que refletem os valores humanitários, tendo em sua constituição um item exclusivo relativo aos direitos humanos, no qual se destaca que “nenhum psicanalista participará ou facilitará a violação dos direitos humanos básicos de qualquer indivíduo, conforme definido pela Declaração de Direitos Humanos da ONU”.

 

Na saída da casa de Freud, em Londres, encontramos, na lixeira em frente a esta casa, um trabalho escolar sobre Direitos Humanos da criança. Um lugar impróprio para algo tão elevado no curso de nossa civilização!

 

Essas são raízes que germinarão e estarão brotando no nosso próximo Congresso.

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).

 

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