16.08.19 Observatório Psicanalítico – 116/2019

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

Brasília de cocar e margarida, visto por poucos

Marcella Monteiro de Souza e Silva (SBPSP)

Poucos de nós puderam apreciar, essa semana, Brasília colorida! O vermelho, o amarelo e o lilás que enfeitaram a Esplanada, trazidos pela 1a Marcha das Mulheres Indígenas (terça, dia 13) e pela 6a Marcha das Margaridas (quarta, dia 14) pouco foram noticiados pela grande mídia, reiterando a invisibilização dedicada às nossas mulheres, uma das várias facetas do preconceito de gênero.

Os dois eventos, que chegaram a reunir 100 mil pessoas, revelaram o amadurecimento político e a capacidade de organização e mobilização das mulheres indígenas, trabalhadoras rurais, ribeirinhas e quilombolas. Mulheres que reivindicam acesso aos bens comuns (como água e alimentação livre de agrotóxico), a uma educação que não as discrimine, ao fim da violência sexista, à saúde e aos direitos trabalhistas. Mulheres que nos alertam que a luta também é de todos, pois nossas florestas estão sendo derrubadas, nossos rios contaminados, nossa comida impregnada de agroquímicos.

Apesar da Marcha das Margaridas (o nome é homenagem a Margarida Maria Alves, trabalhadora rural e líder sindical assassinada por usineiros de cana de açúcar em 1983) ser a maior ação das mulheres da América Latina, a Folha de São Paulo dedicou a ela uma foto na primeira página mostrando apenas 17 mulheres espaçadamente dispostas pela rua…. enquanto que o Estado de São Paulo nem mesmo noticiou a Marcha, num claro processo de silenciamento das mulheres que lutam contra a cultura patriarcal e machista e querem ser reconhecidas como sujeitos políticos transformadores da sociedade.

Outra forma de silenciamento, agora dirigido aos indígenas, foi proferida pelo nosso presidente ao afirmar que “cocozinho de índio impede licenciamento de obra” e que “tem que acabar com isso no Brasil. Tem que integrar o índio na sociedade e buscar projeto para nosso país”. A intenção de “integrá-los na sociedade” sustenta-se na premissa eurocêntrica colonizadora de que existe uma sociedade esclarecida superior às demais sociedades; o que significa um profundo desrespeito às origens e crenças indígenas, negando a pluralidade das formas de vida, de existência e de hábitos. (Krenak)

Ora, se o desamparo é comum a todos, sabemos que diversas são as formas de lidar com ele. Se não conseguimos suportar a falta, a imperfeição, o desamparo, tentamos negá-lo forjando ideais absolutos que servem de refúgio para nossa insegurança. Ideais como poder e superioridade que passam a configurar, então, o superior e o inferior, o certo e o errado. Passamos, então, a humilhar, subjugar, silenciar o outro, condutas que afirmam, imaginariamente, nossa pretensa superioridade.

Se podemos suportá-lo, aceitar a falta, a incompletude, é possível buscar saídas criativas através do pensamento, da reflexão, da discussão, o que implica uma abertura e receptividade ao outro e não a sua exclusão.

Haveremos de marchar em busca de saídas coletivas criativas para o enfrentamento tanto do machismo, ainda muito presente na nossa sociedade, quanto do recrudescimento de pensamentos autoritários a que temos assistido.

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).