28.08.19 Observatório Psicanalítico – 118/2019

 

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

 

Queimam as florestas

Leopold Nosek (SBPSP)

 

Nosso ambiente está em questão, a ecologia se tornou nosso tema.

 

Os anos após a 1ª guerra mundial gestaram monstros. Em 1940, pouco antes de morrer, Walter Benjamim escreveu as suas famosas teses sobre a História. Lembra num trecho que assolados pelo obscurantismo até os mortos estão em perigo. Alerta também para os perigos do tratamento equivocado dos que se opõe à barbárie, mas se deixam levar por uma temporalidade linear e da visão de um progresso inevitável no horizonte.

 

Nunca havia pensado que me defrontaria com o risco que os mortos correm e que vi essa cena explicitada na homenagem pública que um torturador mereceu, em ambiente de nossas mais importantes instituições até então democráticas. A aceitação da tortura não apenas é uma violência que se abate sobre sua vítima, sua presença implica na aceitação do projeto de destruir o humano e o pensamento em toda a ecologia social onde esse fato ocorre. Tal projeto foi explicitamente reafirmado no ataque feito a um desaparecido no contexto de um debate com a OAB. Esses fatos que podem ser considerados detalhes são de fato sintomas de algo muito mais amplo e, afinal, nós analistas temos a “mania” de pensar o geral a partir de singularidades.

 

Enquanto se gestava o Ovo da Serpente, Freud, em meio à sua prosaica vida de médico, em Viena, desenvolvia uma ampliação revolucionária de seu pensamento. Não estava mais como eixo de sua prática a interpretação dos sonhos, mas sim a sua construção. A psicanálise passa então a se debruçar sobre a origem e o desenvolvimento do pensamento. Isso se radicaliza nos anos 70 e vemos isso por exemplo na obra de Laplanche, nos exemplos da Grade de Bion, também no trajeto de pulsão em suas diferentes camadas de representação explicitados por Green. A psicanálise se aproxima da literatura e da arte. 

 

Contemporânea a esta transformação Freud se aproxima cada vez mais de temas que ao mesmo tempo que metaforizam a sua teorização se refletem em preocupações acerca da sociedade. Em sua vida pessoal, comete um engano trágico como se vê nas suas hesitações em publicar Moisés e o Monoteísmo, quando, explicitamente, afirma confiar nas forças conservadoras e religiosas de que estas se oporiam à barbárie que estava no horizonte. Lembremos como esse texto radicaliza a percepção da violência que entranha as origens da civilização. Freud, no entanto, assiste à entrada triunfal das forças nazistas em Viena, onde são recebidas em delírio pela população local e apenas sobrevive graças aos esforços de Marie Bonaparte. No entanto, suas irmãs têm destino final nos campos de concentração. Temos no nosso passado a diáspora analítica da “mitteleurope” e, recentemente, num plano menor a diáspora argentina no regime militar.

 

A história não se repetirá, as reminiscências vão requerer um trabalho reflexivo nas novas circunstâncias. Assistimos a transformações assombrosas com o fim das utopias do século XX, a concentração enorme do capital que, muitas vezes, é maior que o recurso de nações e põe em xeque os estados nacionais, a revolução tecnológica e a informação, a mudança de formas de trabalho e tantas outras, que seria impossível desenvolver nesse espaço. Com isso, as formas tradicionais do agir e do pensar se transformam, também se transformam as formas do sofrimento do espírito. A localização social da classe média se desloca e as profissões da saúde ganham novas práticas. Volta à cena o conceito de Durkheim de anomia. Com a ausência de acervo reflexivo, as certezas e as religiões se tornam majoritárias e fruto de frustrações a violência toma espaço. No espaço das transições crescem os monstros. Como analistas, somos também afetados e minha geração é testemunha dessas mudanças e também das incertezas que estão no horizonte do tempo.

 

Antes de queimar as florestas há que se queimar o pensamento e o desastre ecológico também se abaterá sobre o pensamento. Nós, psicanalistas, somos herdeiros do iluminismo e como nosso objeto são os sonhos. Gosto de pensar que habitamos um reino onde o obscuro e o assombro imperam e nossa ecologia será a de um iluminismo noturno. Dependemos de uma ecologia do livre pensamento, da busca permanente da verdade, somos companheiros da ciência e das artes, nos alimentamos de experiências e de literatura. Isso nos coloca imediatamente dependentes da liberdade e da democracia. Qualquer ferimento desta nos atinge e não temos alternativa de sermos políticos, no mais íntimo de nossa prática. O incêndio da floresta tem no seu horizonte a destruição do pensamento e essa é uma questão psicanalítica, afinal, supostamente estamos preparados para permanecer pensando em meio à fumaça.

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).

 

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