09.09.19 Observatório Psicanalítico – 119/2019

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

Dor e Gloria

Cintia Buschinelli (SBPSP)

Som de um clarinete solitário.

Acompanhamos, com nosso olhar de espectadores um caminho de ladrilhos no fundo de uma piscina. Na sequência, seguimos lentamente a extensa cicatriz que atravessa o peito de um homem. Uma linha reta, de alto a baixo, um tanto rosada, como se quisesse nos dizer que, além de tudo, ela é recente.

E nos perguntamos: seriam as marcas em nossos corpos, sentidas como atemporais? E uma vez lá, pulsarão como lembrança da dor?

E a cicatriz invisível, aquela que os olhos não alcançam, mas nossos sentimentos sim. Aquela que a vida, a vida como ela é, como sugeriu Nelson Rodrigues, se faz presente sem trégua.

Acompanhamos passo a passo a marca no corpo desse homem submerso na piscina, testando sua capacidade de respirar fora de seu habitat. A água azul estagnada dá lugar as águas turvas e movimentadas de um rio onde o encontramos na infância.

Mergulhamos naquele corte e  encontramos uma vida. A vida, ali traçada, como todas, com seus percalços, glorias e dores tal qual nos anuncia o titulo do filme.

Saímos do corpo e vamos para a memória, esta um corpo invisível, íntimo e particular.  E assim começamos a compreender como aquela vida foi se construindo…

Nossa memória conta a historia de cada um de nós como um filme, um longuíssima metragem que se constrói a cada dia. O mundo das recordações de todos nós, tingido por todas as  cores  possíveis.

Mas, agora, estamos mergulhados no mundo de lembranças criado por Pedro Almodóvar. As cores exuberantes, sua marca de identidade, estão lá como sempre. Mas, quem o conhece sabe  que  o mundo deste cineasta sempre nos fez rir de nós mesmos mostrando a vida pelo filtro tragicômico.

Mas, o Almodóvar de “Dor e Gloria” é  outro. Salvador, seu alter ego no filme, é um homem triste, que não sorri e não nos faz sorrir. Um homem que sucumbiu a dor no corpo e faz uma viagem de volta ao passado, pequenos flashes, que poderiam, quem sabe, nos fazer compreender sua tristeza.

Em “Dor e Gloria” acompanharemos a vida de Salvador, desde seu inicio, em um vilarejo espanhol até o momento em que saberemos o por quê daquele extenso corte em seu corpo.

E não custa lembrar que uma cicatriz é o tecido novo que se forma durante o processo de cura de uma ferida.

As feridas, portanto, tem cura e as tristezas também.

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).

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