13.09.19 Observatório Psicanalítico – 120/2019

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

Sobre livros, arqueologias e o trabalho da memória 

Alexandre Socha (SBPSP)

Apesar da recente crise no mercado editorial brasileiro e do fechamento de muitas livrarias, a publicação em psicanálise parece ainda manter certo equilíbrio, com livros de qualidade sendo lançados regularmente. Enquanto editoras tradicionais da área reduziram ou encerraram sua produção, outras assumiram o espaço e continuaram preenchendo as estantes. Alguns dos títulos surgidos nos últimos anos parecem convergir e dar contornos a um crescente interesse entre nós: o da história da psicanálise, de seus personagens e da gênese e circulação de suas ideias.

 Além daqueles mais obviamente voltados à historiografia, poderíamos incluir nessa lista os livros onde há o resgate de autores que, por um motivo ou outro, foram marginalizados dentro do movimento psicanalítico, como, por exemplo, “Sabina Spielrein: uma pioneira da Psicanálise” (Iluminuras), “Otto Gross: por uma psicanálise revolucionária”(Annablume) e outros. Há também as publicações de trabalhos inéditos de autores centrais, como o Manuscrito inédito de 1931(Blucher), de Sigmund Freud, Bion no Brasil: supervisões e comentários(Blucher) e Melanie Klein: Autobiografia comentada(Blucher). Tais edições não apenas trazem traduções inéditas para o português, como algumas, inclusive, apresentam seus textos pela primeira vez em versão impressa.

Organizando esse recém-lançado último título, dedicado à Autobiografiade Melanie Klein, me percebi às voltas com um dilema talvez incontornável a toda edição póstuma e que não pôde contar com indicações prévias deixadas pelo autor. Por vezes, é como se nos tornássemos o analista de Zeno, do célebre romance de Italo Svevo, que por vingança da interrupção do tratamento publica o diário íntimo de seu paciente. Por outro lado, como desprezar o fato de que a compreensão de muitos autores, analistas ou não, foi em certa medida ampliada pelo surgimento de novos documentos, cartas e manuscritos que não necessariamente estavam destinados a tornarem-se públicos (pelo menos no estado em que foram encontrados)?

Judith Dupont, psicanalista e editora francesa da obra de Ferenczi, conta como foi fortemente desaconselhada a publicar o então inédito “Diário Clínico”, obra que, no entanto, acabou impulsionando a releitura do analista húngaro a partir dos anos 80, após décadas relegado ao ostracismo. Guardadas as devidas proporções, não seria o caso de que a série de publicações mencionadas também nos servisse de estímulo a continuarmos (re)descobrindo e (re)visitando grandes pensadores da psicanálise?

 Ao lançar luz sobre as lacunas, omissões e exclusões, seja na obra de um único autor, seja no próprio conjunto das interlocuções que formam um campo de saber, somos lembrados de que a construção de um pensamento possui sempre a sua face visível e a invisível. Seus bastidores não são meramente contingenciais. Pelo contrário, eles criam o fundo a partir do qual emergem as figuras da teoria e da escrita clínica. É desse modo que a compreensão minuciosa de uma teoria costuma levar em conta o contexto em que se deu sua elaboração, os diálogos implícitos a que remete, suas ressonâncias políticas e pessoais. Tal perspectiva talvez esclareça algo sobre o aumento do espaço que essas questões têm ganhado nos estudos em psicanálise.

 Mais além, precisamente no momento em que vivemos, onde há tentativas reiteradas de recriar e distorcer fatos históricos segundo “verdades autoproclamadas”, e onde, mesmo em nosso meio, arquivos de importantes analistas acabam sendo destruídos, qualquer esforço que envolva uma pesquisa historiográfica parece ganhar um novo sentido e premência. No caso das publicações, tornam-se parte do trabalho de memória da própria psicanálise, reforçando a costura dos fios narrativos que sustentam sua transmissão e alargando outros, de modo a que possamos manter um olhar vivo e renovado para o passado, encontrando nele as incessantes reverberações do presente.

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