27.09.19 Observatório Psicanalítico – 122/2019

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo

 

Um minuto de silêncio 

Miguel Calmon du Pin e Almeida (SBPRJ)

 

Ontem vivi uma experiência que me fez subitamente retomar a confiança na humanidade dos homens. Dormi um pouco melhor.

 

Flamengo e Internacional jogavam pelo Brasileirão. Rubronegro que sou, propus a um amigo inglês em visita ao Rio, irmos ao Maracanã. Estádio lotado, a torcida, como sempre, se comportando de forma bastante fiel à descrição que Freud nos dá das massas em Psicologia dos grupos e Analise do Eu (1921). Mesmo o hino brasileiro, cantado antes de todos os jogos, serve de inimigo a ser superado pelo canto mais forte ainda das músicas de incentivo ao time. Ninguém respeita o hino nacional tocado antes dos jogos. Muito menos o minuto de silêncio.

 

O jogo vai começar e o clima de excitação aumenta ainda mais. O juiz, logo o estádio através dos telões, anuncia um minuto de silêncio em respeito à morte de Agatha, a menina de 8 anos atingida por uma “bala assassina”, não perdida, no Complexo do Alemão.

 

Há muito tempo esta homenagem não encontra no torcedor qualquer forma de respeito. A cantoria, impassível, continua a plenos pulmões esperando o juiz apitar o começo do jogo.

 

Eis que algo de surpreendente se instala: diante do anúncio da homenagem à Agatha, as vozes começam a diminuir de intensidade até se calarem por completo. Surpresa: o minuto de silêncio fora respeitado.

 

Tomado pela emoção do que acabava de presenciar, sentia dificuldades em explicar a meu amigo o motivo de minha surpresa.

Afinal como lhe explicar que me emocionava diante do respeito ao minuto de silêncio? Como lhe explicar que talvez estivéssemos diante da manifestação dos 65 mil presentes ao Maracanã contrários à política de segurança pública que vigora em nosso país, em especial no Rio de Janeiro, onde temos um governador que atende pelo aposto de “o do tiro na cabecinha”, referência às declarações dadas sobre o uso de snipers ou drones com a finalidade de matar aqueles que estejam em atitude suspeita com um simples “tiro na cabecinha”? Quem não lembra sua performance, ao descer do helicóptero socando o ar, como num gol, para comemorar o desfecho de um atentado? Em tempo, vale lembrar o cidadão assassinado porque portava um guarda chuva confundido com um fuzil. Claro, era negro, pobre e favelado.

 

Estaríamos ali, no mais inusitado de todos os palcos, assistindo a uma manifestação de repúdio ao “tiro na cabecinha”?

 

Frente à crise da palavra, a força do silêncio? O que teria se passado na cabeça de cada um dos 65 mil presentes no momento em que foram se calando em respeito à Agatha? O que os fazia, tão inusitadamente, silenciar a excitação de seus cantos?

 

Terminado o minuto de silêncio, todos aplaudiram e o jogo começou.

 

A que terão aplaudido? À Agatha, como forma de lembrar que ela não está só, apenas mais um número nas estatísticas dos mortos por “balas assassinas”? Aplaudiram o gesto de consideração de cada um deles? Aplaudiram como expressão de repúdio à política de segurança pública, o repúdio ao governador “do tiro na cabecinha”?

 

Senti-me, subitamente, reconciliado com minha humanidade. Voltei a cantar e a torcer pelo meu time e o Flamengo ainda ganhou o jogo. 

 

Levei para casa comigo aquele minuto de silêncio respeitoso e senti, mesmo que efemeramente, que também não estava mais só.

 

O governador, visando solucionar o que causou a morte de Ágatha, faz uma analogia entre a Segunda Guerra Mundial e a situação do Rio de Janeiro. “Na Segunda Guerra Mundial, no combate ao nazismo, os ingleses iam para debaixo da mesa ao toque da sirene, para que os bombardeios não atingissem a população”.

 

Precisei ler a analogia duas vezes (com um minuto de silêncio entre elas) para acreditar no que lia.  E assim, ele sugere fazer uma cartilha ensinando à comunidade como se comportar nos dias de operação policial.

 

As crianças da comunidade reagem e fazem uma cartilha para orientar a polícia a se comportar em operações na comunidade do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro.

 

O silêncio de um minuto para respeitar um minuto de silêncio dedicado a pensar a política de segurança pública orientada pelo Estado brasileiro.

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).

 

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