04.10.19 Observatório Psicanalítico -124/2019

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo

Sobre líderes, liderados, infâmias e resistência

Cláudio Laks Eizirik (SPPA)

 Existe em Porto Alegre um cinema chamado Guion, numa galeria simpática, democrática, acolhedora de diferenças, do mesmo nome, na Cidade Baixa, bairro que reúne muitos jovens e personagens de inúmeras tribos. 

Tanto o Guion, como os filmes que aí se pode assistir, constituem um espaço de resistência, porque,  com alguma frequência, espalha-se o boato de que ele vai fechar, mas segue impávido e com boa audiência. Na última semana, fui duas vezes ao Guion, para assistir a dois belos filmes de resistência: “Tabacaria”, sobre os últimos dias de Viena antes da anexação nazista, em que um dos personagens principais é Freud, interpretado pelo grande ator Bruno Ganz, e “Legalidade”, sobre o movimento liderado por Leonel Brizola, em 1961, que impediu o golpe militar que ocorreria 3 anos depois. No primeiro, a sombra nefanda de Hitler e dos que rapidamente aderem a ele, pelas mais primitivas razões, vai infestando a capital austríaca e quatro personagens expressam a resistência: o dono da tabacaria, herói de guerra ferido, o comunista desafiador, Freud e sua postura altiva, irônica, inquebrantável, e o jovem de quem se torna amigo e mentor. No segundo, todo o sistema político e econômico dominante no  Brasil e seus agentes, os gorilas, como eram chamados  na ocasião, e, contra essa poderosa estrutura, Brizola e todas forças democráticas que se aliaram a ele, incluindo o comandante do III Exército. Em dois momentos históricos diferentes, portanto, pessoas ou grupos se opõem à tirania, ao mal, à ameaça aos direitos humanos, e de diferentes formas, e com diferentes resultados, deixam lições de coragem e dignidade.

O sensível e comovente texto de Miguel Calmon – Um minuto de Silêncio -, bem como os comentários a ele, mostram uma forma de resistência especificamente psicanalítica, exercida em nosso OP, utilizando as nossas armas por excelência: as palavras, a busca de sentidos, a emoção compartilhada, a indignação, a denúncia dos ultrajes.

Desde “Totem e Tabu” a psicanálise  está presente nesse posicionamento e na busca por entender as motivações e as razões que levam à complexa relação entre líderes e liderados e ao estabelecimento das lideranças despóticas e seu destronamento.

O papel do líder, sua relação com as massas e os grupos, e essa dinâmica complexa está muito bem descrita em “Psicologia das Massas e Análise do Eu” e o papel central da pulsão de morte e destrutividade em “O mal-estar na cultura”.  Sucessivos autores examinaram os significados da democracia (Winnicott), a necessidade da verdade como alimento para a mente e o efeito deletério da mentira (Bion), o silêncio face à ameaça de destruição global como o verdadeiro crime (Hanna Segal), a desumanização do outro como traço essencial do totalitarismo (Green). Entre nós, há um livro essencial, “A Paranóia do Soberano”, do Valton Miranda Leitão.

A recente Assembléia Geral da ONU ofereceu palco para uma variada fauna de líderes internacionais, posicionados em diferentes pontos do espectro ideológico. Eles variam entre aqueles que mais se aproximam da razão, da busca do convívio civilizado, dos valores humanos e democráticos, e aqueles que, com graus variados, mais se aproximam da irracionalidade, da negação da realidade. Estes, com distintos disfarces, representam as faces mais perniciosas do capitalismo selvagem e sedento de lucro, ou das autocracias e tiranias ideológicas e religiosas, indiferentes aos danos, às mortes e à destruição que isto custará.

Para os que descreem da ONU ou de instituições internacionais de semelhantes objetivos, respondo que é nesses espaços que existe algum tipo de convívio possível, alguma contenção da agressividade brutal, algum reconhecimento dos direitos do outro. Veja-se o Acordo sobre o Clima de Paris, por exemplo. 

Dentre tantos atentados aos direitos humanos, liberação da violência policial, estímulo à criminalidade, regressão a etapas anteriores em termos de gênero e diversidade, a questão dos crimes contra o ambiente e negação sistemática dos riscos que corre a Natureza , sob as mais ridículas alegações, pode ser considerada um dos mais graves e que afetará nossas futuras gerações. Ou seja, hoje matam Agatha, amanhã matarão milhares de crianças pelas condições adversas em que vão viver. O que mais impressiona não é a coragem da jovem sueca Greta Thunberg, mas a torrente de ódio e calúnias que se derramam contra ela nas redes sociais.

Que líderes são esses, que usam a mentira como alimento? E como é possível que enormes massas de eleitores continuem acreditando em suas falácias? O que será mais grave? A existência de tais espécimes, ou o fascínio que exercem sobre seus liderados, como já vimos ocorrer em tantos momentos históricos? Na pequena rua em que estava a tabacaria de Viena, fica evidente que esse alinhamento ao novo tirano serve para saciar a inveja, o ódio, a ganância e, afinal, o lucro ao se apossar dos bens dos vencidos. E depois, como se observa por aqui, trata-se de tentar apagar a memória, desfazer conquistas civilizatórias, reescrever a história, glorificar infames e idealizar seus crimes.

Face a todas essas infâmias, impõe-se a resistência. Erico Verissimo, com sua coragem discreta, descreveu seu modesto, mas poderoso, “solo de clarineta”, e foi, como é seu filho, uma voz forte contra a tirania ou sua ameaça de plantão. Cada uma e um de nós, membros dessa grande comunidade psicanalítica internacional, tem seu papel a desempenhar na luta permanente pela decência e pela liberdade.

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).

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