11.10.19 Observatório Psicanalítico – 125/2019

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo

Psicanálise: diálogos na fronteira

Oswaldo Ferreira Leite Netto (SBPSP)

 

Tivemos em São Paulo, na SBPSP, no último sábado, 05/10, uma jornada em que a Diretoria de Atendimento à Comunidade da SBPSP, coordenada por Magda Khouri e uma equipe de valorosos e corajosos colegas, nos apresentou seus “Movimentos na Fronteira”, aqueles que extrapolam os muros do consultório e da psicanálise enquanto disciplina. Uma jornada que foi um marco histórico e político.

A DAC, de cuja instalação tenho a honra de ter participado, há mais de dez anos, evoluiu muito, ampliou e diversificou suas ações voltadas à comunidade. Por um lado, amplia-se a possibilidade de que pessoas que sofrem encontrem ouvidos atentos às suas palavras. Por outro, a saída do psicanalista para territórios desprotegidos pelas paredes dos consultórios contribui para a aquisição de maior versatilidade, tão necessária à compreensão do humano na atual realidade. Penso que são oferecidas alternativas que desmentem qualquer ideia elitista e conservadora acerca do exercício da psicanálise e seu aprendizado.

Estar à contracorrente, compreender melhor e novamente o sentido da revolução epistemológica freudiana. Freud rompeu com a medicina, com o modelo anátomo-clínico e permitiu a compreensão de que os sofrimentos humanos não são redutíveis a doenças. E, caso a caso, escutamos pessoas, na consideração radical pela singularidade; na consideração pelo específico do ser humano que é a palavra. Escutamos as associações livres de nossos pacientes com a atenção flutuante. E adquirimos competência para entrar em contato e tolerar a diferença.

Sábado foi um dia de fortes emoções para mim, que acredito na potência de nosso trabalho, e que pode contribuir para resistir. Colegas envolvidos com ações emancipadoras, dirigidas a grupos de pessoas carentes, hostilizadas, ou até ignoradas em sua invisibilidade social provocada por um sistema que exclui, pensando em possibilidades de escuta psicanalítica. É ousado. Muitos de nós já estamos bem engajados em trabalhos dessa natureza, mas agora a instituição abraçou consistentemente essa política como pudemos testemunhar.

A aceitação da alteridade é questão psicanalítica. Freud trata disso no mal-estar na civilização, onde lida com o conceito de narcisismo das pequenas diferenças, em que reconhecer a diferença no outro encontra resistência no amor a si mesmo.

No dia seguinte, no domingo, também em São Paulo, Fernanda Montenegro, no Theatro Municipal lotado, protagoniza ato de resistência. Com seus instrumentos, a dramaturgia e a literatura.

Nós com nossas ferramentas, individualmente preparados, tentamos compreender parte dessa realidade, acolhendo e escutando indivíduos em sofrimento; dialogando com outras disciplinas, dialogando com antropólogos, cientistas sociais, artistas como no fórum que encerrou a jornada de sábado.

Intelectuais e artistas negros, presentes em nosso anfiteatro, acontecimento incomum, dialogando conosco, esclarecendo sobre a condição de humilhação e exclusão de pessoas, afetadas por isso na sua constituição como sujeitos.

Na clínica, atendendo negros e homossexuais, constato a violência do racismo e da homofobia. Na consideração à constratransferência, podemos detectar em nós reações defensivas, resistência narcísicas em reconhecer a diferença no outro; o que pode causar danos e prejuízos a negros, gays, lésbicas, transsexuais, favelados, moradores de rua, imigrantes.

Ainda encontro colegas com posições conservadoras e normativas, que consideram o sujeito homossexual e a diversidade sexual, que cada vez mais nos é visível, pelo viés da perversão e pelo paradigma da diferença anatômica dos sexos. A psicanálise precisa ser mantida e defendida em sua especificidade radical. A instrumentalização da psicanálise a serviço de moralismos parece inaceitável e deve ser combatida. A psicanálise tem uma dimensão irredutivelmente política, ideológica e social; sábado essas convicções foram reforçadas!

Estejamos permanentemente abertos para essa difícil experiência do “umheimlich”.  E atuaremos psicanaliticamente em outros territórios, numa clínica extensa como nos propôs Fabio Herrmann. E, como instituição científica e formadora, aceitando o desafio de manter uma dimensão propriamente psicanalítica para nosso discurso, nosso pensamento e nossa ação.

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).

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