21.10.19 Observatório Psicanalítico – 126/2019

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo

 

Humilhação e Ressentimento*

Bernardo Tanis (SBPSP)

 

A humilhação atenta contra a dignidade, contra a representação de si, constrange, encapsula. O sentimento de humilhação resulta de uma ofensa, de um ataque ao ser, à sua condição de existência como indivíduo ou membro de um grupo. Ocasiona múltiplos efeitos na subjetividade, desde o silêncio constrangedor do humilhado, até revoltas e insurreições coletivas. 

 

Hoje irei focar na Humilhação Social. Reconhecemos nesta modalidade de sofrimento determinações sociopolíticas, raciais, econômicas, narcísicas, ancoradas em mecanismos muitas vezes inconscientes. Trata-se de um sentimento que afeta a identidade social, cultural e individual do sujeito. O humilhado é destituído de sua condição de humanidade e jogado a uma condição inferior. Seu corpo, a cor da sua pele, suas crenças, sua religião, sua origem, sua identidade de gênero, sua situação socioeconômica, são tidos como justificativas para atos de discriminação, violência, tortura e rebaixamento.  

 

Muitas vezes as formas de dominação e opressão (na família, na escola, nos pequenos grupos, no trabalho, nas instituições) estão amparadas em leis e decretos que as legitimam e, ao longo da história, geram inúmeros efeitos subjetivos: psicológicos, somáticos e morais. A humilhação tem como objetivo a intimidação e gera efeitos de enclausuramento, de desprezo por si e pelo semelhante. Pode se dar social e politicamente, fazer uso das questões raciais, dar-se no limite da tortura, como no caso dos mecanismos coloniais de dominação. Espontânea ou premeditada, pode ser pontual, barulhenta ou oferecida em pequenas doses homeopáticas, que vão minando as capacidades e potencialidades do individuo e, assim, reduzindo sua imagem de si, sua autoestima, até que se veja como um ser de mera subsistência, pondo em cheque sua existência. A humilhação provém do Outro, que pode ser compreendido como o outro humano com quem interagimos, mas também como Outro, universo da cultura, no qual vigoram normas, leis e crenças. Outro da cultura e da linguagem nas quais nascemos e que nos antecedem.

 

Embora conheçamos as formas de humilhação social no passado – durante os períodos da escravidão e servidão, da inquisição, nos campos de concentração e extermínio, nos gulags, nos porões das ditaduras, nas exclusões e confinamentos dos guetos – não podemos ignorar os novos mecanismos que hoje, no mundo pós-moderno e tecnológico, oprimem o individuo (tema que irei desenvolver em  um futuro ensaio).

 

Retomemos então um dos tantos efeitos resultantes da humilhação: o ressentimento. Sentimento amargo que perdura e toma conta da existência do humilhado. O ressentimento pode ser definido como a memória enraizada de um abuso, de um insulto particular, do qual se deseja ser vingado. Seu sinônimo é rancor. Esse sentimento pode se articular como vingança, exercida muitas vezes através de comportamentos sádicos como retorno ativo às feridas concretas e narcísicas, revolta pelos danos externos traumáticos que foram experimentados passivamente.

 

É através da vingança que a relação é revertida: o sujeito ressentido deixa de ser um objeto anterior humilhado, para ser um sujeito da revolta, movido pelo complexo movimento de desforra, mas também de fazer justiça, de recuperar a honra e a dignidade.

 

Perante o ressentimento, a dor e a humilhação social em todas suas formas, haveria outros caminhos possíveis, distintos dos da vingança ou da transformação de passivo em ativo pelo exercício sádico do acerto de contas? O que segue são algumas considerações, a partir da psicanálise. Convido-os a debater estas ideias não como verdades, mas como hipóteses a serem pensadas.

 

Poderíamos convocar a diferença,  como já destacara Kancyper, entre a memória viciante do rancor e a memória da dor. Podemos fazê-lo sem covardia, submissão, ou negação dos crimes cometidos pelo abuso de um poder historicamente construído?

 

A memória do rancor é entrincheirada e nutrida da esperança pela vingança que está por vir. Já a memória da dor é contínua, seguida pelo tempo da elaboração, e exige como condição para sua superação o reconhecimento dos danos recebido e infringido, não podendo jamais ser confundida com a negação destes danos. 

 

Certamente, a memória da dor (na nossa perspectiva psicanalítica e histórica) não se ancora na subestimação do passado, nem na amnésia do acontecimento, nem na imposição de uma absolvição superficial; mas no reconhecimento e admissão por parte do perpetrador do crime, da falta cometida. Na reparação a partir da admissão da responsabilidade. Apenas nesse contexto será concedida ao humilhado a chance de transformar seu ódio e rancor em tristeza.

 

O trabalho de elaboração de um luto perante a humilhação social não poderá ser apenas um trabalho do humilhado, exige e demanda, em contrapartida, o reconhecimento da responsabilidade da sociedade que o fomentou, sustentou e dele se beneficiou.

 

A não elaboração coletiva perpetua a memória de rancor. Esta memória não seria regida pelo princípio de prazer / desprazer, nem pelo princípio da realidade, mas pelo princípio do tormento, pois é da ordem do traumático. A compulsão à repetição é a maneira básica de interceptar o futuro, uma limitação à  capacidade de transformação.

 

Estando o processo de elaboração da escravidão, do colonialismo, da tortura, do racismo, da exploração do trabalho, da criança, da mulher, dos homossexuais impedido de ser feito de modo coletivo pela sociedade, a dimensão traumática da humilhação social vivida se transmite transgeracionalmente, inunda e contamina o tecido social de modo inconsciente, constrói regiões cada vez maiores de subjetividades silenciadas, recalcadas ou clivadas, incapazes de entrar na cadeia do significado simbólico. Esgarça o laço social. O futuro que se constrói nesses contextos é apenas em função da vingança de um passado. No entanto, imperfeita, sofrida, dolorosa e difícil de atingir, resta-nos a memória da dor que admite o passado como experiência traumática, violenta e de dominação, mas que opera para não esquecer, para não repetir, é um sinal de alarme permanente que protege e impede a repetição do mal e que talvez possa dar lugar a uma nova construção, à esperança.

 

*Uma versão deste texto foi apresentada na jornada da DAC da SBPSP em outubro, Movimentos na fronteira, no Fórum sobre Humilhação e Ressentimento.

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).

 

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