29.10.19 Observatório Psicanalítico – 127/2019

Observatório Psicanalítico – 127/2019

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

Coringa. O Inevitável? 

(Contém spoilers do filme)

Marielle Kellermann Barbosa (SBPSP)

Foi com um paciente, ao longo dos seus 8, 9 anos, que li todas as HQs do Batman e descobri que, quando Batman pega os vilões, não os leva para presídios, mas para o sanatório (Asilo Arkham). Os vilões do Batman são dotados da história de suas próprias loucuras.  Neles, a maldade tem enredo.

Coringa, longa metragem de 2019, do diretor Tom Phillips, é estrelado por Joaquin Phoenix e foi lançado no Brasil no dia 03 de outubro. É em uma cidade mítica, Gothan City, a Nova York de Táxi Driver, onde os ricos vivem em regiões arborizadas e seguras e a plebe convive com lixo, ratos e violência, que conhecemos nosso personagem central: um rapaz branco, de idade inespecífica, fala terna, corpo emagrecido, que vive com a mãe doente em uma longínqua periferia.

Arthur Fleck trabalha como palhaço. O personagem, construído por um Joaquin Phoenix  23 kg  mais magro, nos é apresentado como uma figura à beira de, na borda de algo. A cada cena, Arthur se equilibra e não cai por um triz. O personagem habita um corpo estranho e produz uma risada capaz de causar desconforto e uma espécie de constrangimento envergonhado no espectador desde a primeira até a última cena. As costelas saltadas, os ombros encurvados, é Gollum urbano, interespécie entre homem e menino.

Esse estado inseguro e instável, perigoso e claudicante é mantido ao longo do filme e tensionado pelos acordes assombrosos da violoncelista islandesa Hildur Guðnadóttir, responsável pela trilha sonora. O diretor escolheu usar a música tema ainda nas filmagens, situação não habitual em se tratando de trilhas, comumente incluídas na edição final. Os graves do violoncelo abrem uma sensação de abismo, criada pelas notas prolongadas e pela amplitude do som e que constroem um ambiente sonoro mais atrelado às texturas e timbres do que à melodia.

Arthur tenta ser palhaço, tenta brincar com um menino (negro) no ônibus, tenta fazer contato com uma moça (negra) no elevador, tenta contar o que pensa para a assistente social (negra) que o acompanha. Tenta e falha, tenta e ri sua gargalhada inumana. As tentativas, recobertas por uma voz terna e deslocadamente infantil, constroem uma experiência de angústia-espelho, nós e Arthur juntos, nos equilibrando a beira de.

Esse estado interno, calculadamente tecido por diretor, trilha sonora, fotografia e uma interpretação soberba de Phoenix, culmina na cena dos três rapazes ricos e bêbados assassinados por Arthur no metrô, seguida por sua fuga e uma dança magistralmente sombria executada dentro de um banheiro imundo. Arthur dança em frente a um espelho, movimentos e acordes do violoncelo em macabra harmonia.

Como ex-bailarina, testemunho o trabalho corporal de Phoenix, que habitou a pele, os músculos, os movimentos de um palhaço atormentado de uma forma poderosa, brilhante e profundamente perturbadora.

O palhaço dança, Arthur gargalha, o Coringa vai surgindo de forma natural e inevitável.

Arthur descobre uma antiga internação psiquiátrica da mãe (no sanatório Arkham), tem notícia de ter sido adotado e de abusos físicos sofridos na infância. Em paralelo às violências psíquicas, domésticas e internas, as agressões de um pai-Estado,  pai-governo, atravessam o personagem. Ele e a mãe são pobres, moram longe, ele fica desempregado. Tensões sociais aumentam e a violência urbana se acentua. Em decorrência de cortes em gastos públicos, Arthur vai deixar de ser acompanhado por sua assistente social. “Ninguém liga pra gente como você, pra gente como eu. Como vou ter meus remédios?” –  Pergunta-se um Arthur surpreendentemente lúcido.

Arhur desce da linha tênue e perigosa na qual tentava se equilibrar, nossa angústia como espectadores se arrefece, aterrissa-se no chão do abismo. Ele mata a mãe e assume uma perversão integral. Sordidamente nos aliviamos, ao menos existe lucidez na maldade. O Coringa surge no compasso rítmico em que Arthur assume a realidade violenta que o constitui. Quando não existe mais esperança de ser ouvido, não existe mais dúvida. Coringa enfim escolhe roupa, maquiagem e cabelo que lhe caem bem, perde o aspecto estranho, ganha ares de poder.

Nas cenas finais, o longa metragem sombrio conecta-se propositadamente a um cenário mais conhecido de filmes de super-herói: carros batendo, cidade incendiada, o assassinato dos pais de Batman a anunciar um fio de continuidade.

Críticas ao filme levantam receios de que Coringa incite violência, o exército norte americano reforçou o policiamento na estreia.

É enganoso traçar uma linha de causalidade entre transtorno mental e violência, assim como o é entre pobreza e criminalidade. Porém, há uma crítica mais sutil no filme e talvez por isso mais interessante, a racial. Em paralelo à abordagem política relevante e ao tratamento devidamente complexo do universo da loucura, Arthur é branco e interage com diversos personagens negros ao longo da história. Se Arthur fosse negro, pobre e louco, seria de fato invisível. Nesse ponto talvez o exército norte americano tenha razão em aumentar a vigilância para possíveis tiroteios. Coringa é, também, um homem branco, violentado, que reivindica sua existência, não admite ser chamado de palhaço, não tolera viver no mesmo lugar que gente negra. “Eu nem sabia se eu realmente existia”, diz ele, “agora eu sei”.

Na parte de baixo da linha do equador, em nosso cenário político atual, saímos do cinema nos perguntando como não há mais Coringas por aqui.

Ainda em outro lugar, dentro da gente, vamos para casa dançando uma coreografia estranha, comovidos pela relevância artística que acabamos de testemunhar.

Como psicanalistas, desejamos que Joaquin Phoenix recupere-se de sua entrega generosa à loucura que há nos violentados, nos marginalizados, nos filhos de mães loucas e de pais-Brasil.

(A análise musical é contribuição de Ana Paula Emerich, musicista bacharel em regência pela Unicamp, professora da Escola de Artes Visuais do Parque Lage).

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).

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