04.11.19 Observatório Psicanalítico – 128/2019

 

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

 

As ervas daninhas

Miguel Sayad (SBPRJ)

 

“muito antes do primeiro esboço da civilização, toda a civilização estava em gérmen na mulher.” (Machado de Assis, na crônica “Estação”, 1881)

 

Veneza, Monastério Mekitarista, ilha de São Lázaro, ervas daninhas invadiam pelas frestas as pedras do piso do jardim ordenado cartesianamente. Causavam nova configuração excêntrica, uma nova ordem estética e ética na ocupação do espaço.

 

Uma metáfora da alteridade e inclusão, função da força e potência do que emerge e da capacidade de hospitalidade do ambiente.

 

Os excluídos do mundo ou da consciência, apesar da força do recalque ou da dissociação, forçam sua visibilidade, fala e inclusão, contribuindo para a variabilidade e enriquecimento de um mundo em transformação.

 

Na obra “Ervas Daninhas”, de Rosana Palazyan, Leão de Ouro na Bienal de Veneza 2015, Pavilhão da Armênia, o esforço de inclusão social se compõe com a inclusão do recalcado na consciência. O genocídio dos armênios é até hoje denegado e silenciado pela Turquia, mas cada vez mais conhecido e falado pelo mundo todo.

 

No livro dos chistes de Freud está a evidência de como se organiza o sistema inconsciente através e por meio da fala e das palavras e nas suas associações, umas com as outras, de sonoridades a olfatos, da atmosfera envolvente aos sentidos associados. 

 

Podemos considerar que, do ponto de vista dos sistemas totalitários, não há apenas palavras daninhas, mas conhecimentos e pessoas daninhas que, pelas forças da ordem e progresso, são reprimidas, invisíveis e caladas.

 

Pular a corda, elas pularam a corda.

Será que estava já presente no leite e seios maternos um germe transgeracional e agora estão elas, em manifesta presença, no Parlamento Português?

  

Pular a corda teria o sentido do corte na psicanálise freudiana ou da cesura no sentido que lhe percebe Bion?

 

Os portugueses não gostavam de pés descalços, com os dedos e dedões aparecendo livres e soltos?!

As freiras de um colégio em Bor, na Guiné, educavam moças pretas e mulatas; batiam com régua no sexo delas quando tinham ataques histéricos ou epiléticos, devido às suas contorções corporais serem associadas ao diabo.

 

A língua, a cultura, as roupas e a sexualidade eram reprimidas pela violência corporal em nome de Deus e da boa vida para os brancos portugueses.

 

Em Bissau, a cidade dos portugueses brancos, os pretos só entravam, para trabalharem para os brancos, depois do apito de abertura.

 

Depois do apito das seis da tarde, os pretos tinham que sair e uma corda era posta em torno da cidade, só podiam entrar novamente quando a corda fosse tirada e o apito trinado, e com sapatos, daí a expressão “pular a corda” e sem sapatos.

 

As três pularam a corda e entraram no Parlamento Português, e também a corda foi recolhida ou retirada. Os brancos bateram em retirada. Os brancos estão, não sem fortes resistências, a movimentarem suas fronteiras.

 

Guiné Bissau foi a primeira colônia de Portugal a ficar independente, em 1973. Dentre 1 milhão e 600 mil habitantes, com mais de 30 etnias, a língua portuguesa é falada apenas por 14% da população. Essa é uma questão muito significativa, especialmente para a parte branca da Comunidade das Países da Língua Portuguesa (CPLP). 

 

Vejam a fala de Joacine Katar Moreira.

Ela veio da Guiné para Portugal aos 8 anos, e este ano foi eleita pelo LIVRE, partido de esquerda, com os votos de Lisboa, como deputada no Parlamento Português.

 

“Filha de uma terra devastada/

De um povo negro colocado em rodapé/

Mas dessa herança, ela faz força e caminhada/

É da Guiné. E finca o pé”,

 

Doutora em Estudos Africanos, preside o Instituto da Mulher Negra em Portugal (INMUNE).

 

“Inicialmente, a minha investigação tinha ótica feminista, o objetivo de analisar as mulheres e de retirá-las da invisibilidade na História. Mas às tantas optei por objetificar os homens, porque acho um erro enorme andarmos sucessivamente a objetificar as mulheres, a estudar as mulheres, a analisar as mulheres, quando as sociedades são de dominação masculina. O enfoque precisa de ser nos homens, para compreendermos as instabilidades, as violências, as guerras, a falta de organização.

 

O movimento feminista tem de parar de universalizar as experiências das mulheres ocidentais … omitindo as necessidades urgentes, imediatas, das outras mulheres, das minorias.

 

. . . muitas vezes damos nome de minoria a grupos que não são necessariamente uma minoria, são uma minoria apenas no que diz respeito ao acesso aos recursos, às mesmas oportunidades. É preciso dar voz às mulheres e às minorias étnicas, sim. Mas as mulheres não são uma minoria, embora sejam normalmente olhadas dessa maneira. Os pobres não são uma minoria, minoria são os endinheirados, os milionários, mas a esses nunca damos o nome de minoria.

 

. . . somos as herdeiras de uma história … de violência e de exploração: com a escravatura, com o colonialismo, enquanto mulheres imigrantes e, hoje em dia, enquanto descendentes continuamos a ser olhadas como pessoas estrangeiras”.

 

As três pretas são da Guiné, terra aonde os mulatos tomavam conta da administração, vindos de Cabo Verde, servindo aos poucos brancos portugueses que lá viviam. 

 

As três pretas são como ervas daninhas que para vicejarem, encontram na capacidade de estar só, ainda fora da ordem estabelecida, a força para a emergência e estabelecimento do dissociado, do invisível, do silenciado, do recalcado, por meio da linguagem falada e atuada em sexualidade, comportamento, crenças e tradições.

 

Associamos as ervas daninhas à Psicanálise no trabalho para a assunção do outro, da diferença, (o outro desconhecido “que é nós”, que nos é). 

 

Assim como a erva, que é daninha para o sistema social estabelecido que elas rompem, a Psicanálise é a peste, na figura de linguagem chistosa criada por Freud, para a mesma qualidade de ordem recalcante.

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).

 

Imagem: Ervas Daninhas : Leão de Ouro na Bienal de Veneza 2015. Pavilhão da Armenia. Obra de Rosana Palazyan.

 

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