08.11.19 Observatório Psicanalítico – 129/2019

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

 

Raoni, Krenak, Kopenawa: os sonhos e o fim do mundo

 Sergio Lewkowicz (SPPA)

 

“Os brancos não sabem sonhar, é por isso que destroem a floresta desse jeito” (Davi Kopenawa, Xamã Yanomami).

 

Raoni, Krenak e Kopenawa são três importantes líderes e pensadores que estão conseguindo uma façanha desafiadora: unir e integrar os diferentes povos indígenas do Brasil, apesar de suas diferenças étnicas e culturais, em sua luta para tentar adiar o “fim do mundo”.

 

Fiquei extremamente impactado e, confesso meu preconceito, até surpreso com a riqueza do pensamento, com a lucidez, com o respeito à natureza, às diferenças e à subjetividade que esses três homens demonstram.

 

O mais antigo e conhecido é o cacique Kaiapó Raoni Metuktire, recentemente lançado por um grande grupo de líderes indígenas, antropólogos, ecologistas e indigenistas para o prêmio Nobel da Paz de 2019, pelo seu esforço na preservação da Amazônia.

 

Raoni nasceu na aldeia Krajmopyjakare, no nordeste de Mato Grosso. Encontrou pela primeira vez os homens brancos com sua tribo, em 1954, e aprendeu com os Villas-Boas o português. Ainda assim, hoje, com 89 anos, prefere a língua kaiapó, que, segundo ele, expressa melhor seu pensamento. Vive ainda a mesma vida modesta, atualmente no Parque Nacional do Xingu.

 

Há mais de 60 anos, Raoni luta pela preservação da floresta e de sua etnia Kaiapó. Batalhou no enfrentamento das invasões, pela demarcação das terras indígenas e pela preservação dos recursos naturais da Amazônia. Dois eventos de impacto atestam sua fama e respeitabilidade: o premiado filme “Raoni”, de Jean Pierre Dutilleux (que conheceu em 1973), cuja versão em inglês é narrada por Marlon Brando; e a parceria com Sting, com quem fez, na década de 1980, uma turnê de divulgação da causa amazônica pelo mundo e um grande show em Nova York, com a presença de Elton John, Tom Jobim, Caetano Veloso e outros. Este ano, o papa Francisco e o presidente da França, Emmanuel Macron, ouviram de Raoni o pedido de ajuda para salvar a floresta e os povos indígenas.

 

Infelizmente, mas de maneira esperada, o presidente Jair Bolsonaro atacou violentamente o Cacique Raoni em seu discurso na ONU, acusando-o de peça de manobra por governos estrangeiros. Também tem dito que ele já tem uma idade avançada e não discrimina mais as coisas, e até que “Raoni vive tomando champanhe em outros países por aí”.

 

Além do desrespeito e desconsideração com um cidadão que é prestigiado em todo o mundo, Bolsonaro mostra claramente a que interesses está servindo: do agronegócio, da mineração e da exploração de madeira.

 

Raoni diz que os anos Lula e Dilma marcaram uma quebra na sua relação com o governo federal. Ele afirma que foi recebido por todos os presidentes entre a redemocratização e a posse de Lula: José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. Todos eles, diz, “me apoiaram muito para que eu pudesse ajudar meu povo”. Com Lula, porém, a relação se deteriorou. “Ele começou a planejar essa ideia de levantar Belo Monte. Nós conseguimos parar a obra, só que ela recomeçou com o governo Dilma. E Dilma autorizou Belo Monte”. Crítico ao empreendimento, Raoni deixou de ser recebido no Palácio do Planalto. Agora, com Bolsonaro, a luta ficou ainda pior e o “fim do mundo” ficou mais próximo, pois estamos frente a um Estado etnocida.

 

Enquanto eu escrevia este texto, o indígena Paulo Paulino Guajajara foi assassinado a tiros na Terra Indígena Arariboia, no Estado do Maranhão. Tinha 26 anos de idade e a função de fiscalizar e denunciar invasões na mata, atividade de muito risco. Foi covardemente morto em uma emboscada de madeireiros. Ficamos assim mais perto do fim do mundo. Já Sonia Guajajara, do mesmo povo e hoje coordenadora da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, estava no mesmo momento em reunião com lideranças e parlamentares europeus para divulgar a campanha “Sangue indígena, nenhuma gota a mais”, a fim de evitar justamente mortes como a de Paulo Paulino. Em reportagem para o El País, ela disse: “Há um genocídio institucionalizado. Há uma permissão para matar, para armar pessoas, ainda mais quando crimes ficam impunes e agora, diante da autoridade máxima do país dizendo que não vai mais demarcar terras, que pretende explora-las, um discurso que favorece a contrariedade dos povos indígenas. Os invasores se sentem legitimados pelo Presidente”.

 

Como diz Raoni: “se continuar com as queimadas da floresta, o vento vai aumentar, o sol vai ficar muito quente, a Terra também. Todos nós, não só os indígenas. Todos nós vamos ficar sem respirar”.

 

O território dos sonhos é comum entre  psicanalistas e povos originários. Para os diferentes povos indígenas, o sonho é um caminho de aprendizado sobre a vida, sobre nós mesmos e sobre a interação com os outros e com a natureza. É o território da subjetividade. Os Xamãs têm passagem por esse mundo paralelo que habitamos durante os sonhos e, a partir daí, buscam alívio para o sofrimento das pessoas. Enquanto psicanalistas, estamos muito próximos dessa mesma atividade. Sabemos que quando conseguimos conversar sobre nossos sonhos estamos contando mais uma história, o que, no dizer de Krenak, significa que “adiamos o fim do mundo”.

 

Raoni não se abate por não ter recebido o Nobel: “Neste ano não saiu meu nome, mas vou esperar o ano que vem. Estou firme!”

 

Estamos vivendo em uma época difícil em todo o mundo. Um tempo em que novamente aumentaram os ataques contra o pensar e a subjetividade, um tempo de ataque aos sonhos, o que significa, para os analistas e os indígenas, “o fim do mundo”.

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).

 

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