13.11.19 Observatório Psicanalítico – 130/2019

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

 

Eros versus Tânatus

Anette Blaya Luz (SPPA)

 

“O contrário da vida não é a morte, é a repetição”. Frase proferida pelo Maestro João Carlos Martins durante o espetáculo, da última sexta-feira aqui em Porto Alegre, no Auditório Araújo Viana: “João Carlos Martins e o Cinema in Concert”.

 

Espetáculo inovador. Não uma repetição.

Combinação de imagem e som, o espetáculo encanta olhos, ouvidos e coração. Olhos, pois o telão mostra recortes originais de filmes consagrados. Ouvidos, porque o maestro além de reger uma orquestra competente, apresenta uma dupla de cantores sensíveis e afinados que encantam a plateia.

 

Além do impacto estético que a plateia vivencia, há algo a mais no espetáculo: uma emoção que provoca a sensação de que vale a pena pertencer a raça humana, algo difícil de sentir nos dias de hoje.

 

O maestro, em tocante depoimento, relata a dramática constatação que não poderia mais tocar piano, seu eterno companheiro, como ele mesmo descreve sua relação com tão significativo instrumento.  

 

Pianista desde jovem, agora, devido a lesões vasculares em ambas mãos, não pode mais deliciar-nos com sua arte. Mas não desiste de viver dela, nem abandona sua paixão, a música. É comovente assistir sua performance ao piano com os dois polegares, únicos dedos que lhe restam saudáveis.  

 

Freud, em 1920, surpreende ao propor que as pulsões se dividem em pulsões de Vida e de Morte, em lugar das pulsões de autoconservação e sexuais, como antes. Relaciona a compulsão à repetição à pulsão de Morte. Recebemos do maestro uma lição de vida: em vez de ficar se repetindo amargurado com o destino de suas hábeis mãos, mergulha, aos 64 anos de idade, em nova carreira. Tornar-se maestro é um belo exemplo de saúde mental e da vitória de Eros contra Tânatus. É de gente assim que o Brasil precisa. Como diz João Carlos Martins: sem arte, cultura e educação nenhum país progride. Ódio não nos adianta de nada.

 

Muito obrigada, maestro, por nos brindar com sua arte e pela lição de vida que nos oferece com seu exemplo de luta por uma vida digna.

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).

 

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