18.11.19 Observatório Psicanalítico – 131/2019

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

O Psicanalista como guardião do laço social

Rafaela Degani (SBPdePA)

 

A reatualização do trauma

 

Em 2013 fiz parte do projeto Clínicas do Testemunho. O Projeto integrou a terceira etapa da justiça de transição, que prevê a reparação psíquica aos afetados pela violência perpetrada pelo Estado no período da ditadura-civil-militar. Em 2015 dei meu testemunho sobre a história do meu tio Jorge Alberto Basso, desaparecido na Argentina em 1976.

 

A eleição do presidente Jair Bolsonaro, em 2018 retoma a ideia freudiana sobre a compulsão à repetição patológica: aquilo que não pode ser lembrado, acaba por retornar em ato (Freud, 1912). A compulsão à repetição tende a encerrar quando as lacunas da memória são preenchidas. Precisamos lembrar para esquecer. Na contramão da lembrança, os porões da ditadura civil-militar do Brasil seguem fechados, dando lugar ao silêncio, à desmentida e à repetição. Ter como presidente uma pessoa que brinda ao Coronel Brilhante Ustra, um dos mais sádicos militares de quem se tem notícia, traz à tona a reatualização de um trauma. Em outras ocasiões, o presidente eleito chamou Ustra de herói nacional e não se cansa de fazer elogios aos 20 anos em que os militares dominaram o Brasil sob um regime que tinha como prática comum a censura, a tortura, perseguições e assassinatos.

 

No Brasil não houve um ato simbólico e efetivo que excluísse a tortura das práticas admitidas em nosso país, então ela prossegue, hoje, contra negros, pobres e jovens de nossas periferias (Kehl, 2016). Voltando séculos atrás na história sangrenta e violenta de nosso país, nos encontraremos com o extermínio dos povos indígenas e com a escravidão. Temos um passado sujo e um Estado que pouco ou nunca reconheceu seus erros.

 

A desmentida da existência do terror de Estado e o apoio de uma grande parcela da sociedade configuram grande parte do horror traumático dessas situações. Tanto em termos de valor histórico, para a sociedade, quanto em termos de valor subjetivo, para o paciente, somente as políticas públicas de reparação podem carregar o símbolo da admissão, pelo Estado, do crime que ele mesmo perpetrou. Para a vítima, o valor desse gesto é inestimável: assim como não existe luto sem reconhecimento da morte, não há reparação possível sem o reconhecimento do crime. (Abraão, 2014)

Trangeracionalidade do trauma

 

Jorge Alberto ou Jorginho – como minha avó gosta de chamá-lo – desapareceu aos 26 anos de idade em Buenos Aires, depois de ter escapado do Chile, em 1973. Um menino pacífico e sonhador, estudante de história e desde muito jovem engajado na luta pela democracia ao redor da América Latina.

 

O contato com a família era feito por cartas endereçadas à minha avó. Em 1976, as cartas pararam de chegar e nunca mais se soube dele. Até hoje nada foi descoberto sobre seu desaparecimento. Uma história povoada por informações desencontradas e tentativas de busca frustradas. Restou apenas o vazio de um sumiço, sem data, sem local, sem explicação. Eu sou sua única sobrinha e única neta de minha avó, portanto a única herdeira dessa história em minha geração. Recentemente me tornei mãe de dois meninos, e com isso surgiu a vontade, através das palavras escritas e compartilhadas, de encontrar algum destino possível para essa dor, que silenciosamente é transmitida através das gerações.

 

É da ordem do irrepresentável a situação de uma mãe que ao perder o filho lhe é negado o direito de enterrar seu corpo. Trata-se de uma crueldade abissal não ter a possibilidade de uma explicação. Resta a dor e o desespero.

 

Os efeitos da tortura e outras formas de violência de Estado são transgeracionais, inscrevendo o medo, promovendo a exclusão e a violência em múltiplas formas no laço social (Betts, 2018). A reparação psíquica e a superação do trauma transgeracional só podem ser alcançadas no âmbito interdisciplinar: em uma articulação entre justiça e sociedade, num esforço coletivo para restituir a memória histórica e particular.

 

Uma função do psicanalista

 

A democracia em risco coloca, também, a saúde mental em risco. A democracia é condição de vida (Birman, 2019). Assim sendo, proponho que possamos pensar o papel do psicanalista como um dos guardiões do laço social, sustentando a democracia como a melhor opção para a prosperidade dos laços e da saúde psíquica. Zelando por uma sociedade onde o pacto civilizatório seja preservado.

 

A psicanálise brasileira também precisa abrir seus porões, relembrando para jamais repetir, o terrível caso do psicanalista Amílcar Lobo. A ideia de uma psicanálise apolítica e neutra fez com que no passado algumas instituições se calassem frente ao caso do “Dr. Cordeiro”. A neutralidade não pode ficar a serviço da desmentida do contexto que nos cerca e cabe também ao psicanalista resguardar o pacto civilizatório.

 

Para finalizar, julgo pertinente algumas reflexões sobre nossa prática enquanto psicanalistas: Será que sustentamos no fazer analítico a ética que nosso lugar implica? Como interpretamos, por exemplo, um analisando que nos conta ter sofrido por algum ato racista? Escutamos como projeção neurótica ou levamos em conta o contexto social? Resguardamos a democracia dentro de nossas instituições ou não aceitamos as diferenças? Por ora cito apenas esses exemplos como gatilhos para pensarmos em nossas hipocrisias da vida cotidiana.

 

Renunciar às nossas satisfações pessoais e egoístas é por vezes um trabalho inglório que não acontece sem deixar sintomas, porém sabemos que o outro caminho, o da satisfação total de nossas pulsões, nos levaria à barbárie e destruiria a todos nós. Portanto nos resta sermos guardiões do laço social resguardando nossa jovem e ameaçada democracia.

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).

 

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