22.11.19 Observatório Psicanalítico – 132/2019

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

Bacurau

Rosane Muller Costa (SPFOR)

Certas verdades do humano só podem ser transmitidas pela via da experiência estética, sendo essa a função da arte. Dessa perspectiva, a história escrita e dirigida para o cinema por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles é uma provocação, desde o título de “Bacurau”. Que estranha palavra é essa?

Na película é o nome de um povoado no agreste pernambucano e de um pássaro. Na realidade, a ave notívaga, que os do Norte chamam de bacurau, tem um canto impossível de não ser ouvido, quando rompe o silêncio da noite. Suscita o trágico, o passar do tempo, a morte e todos os demônios da escuridão.  

Na mitologia nordestina, bacurau é um homem tão feio quanto mau, uma espécie de bicho-papão. Para nome de cidade deve funcionar como uma gárgula, aquelas figuras monstruosas postadas no alto das igrejas góticas, eternas sentinelas a examinar os espíritos dos mortos e dos vivos. Só os bons têm passagem.

Somos confrontados, já no início do filme, com os signos da violência: caixões-de-defunto, mortos, enterros, armas e ladrões. Essas são também imagens do cotidiano das cidades do interior, onde morre-se muito por bala e doença. Se morre pelo descaso dos governantes de hoje e de sempre. O descaso é uma violência disfarçada, e por isso, muito mais perigosa. Essas imagens, ultimamente, se intensificaram nos noticiários televisivos. São a realidade da nossa vida diária, embora pareçam, nas mídias, tão distantes quanto um filme de terror ou Western americano.

Um justiceiro e o prefeito são figuras centrais no enredo, revelando uma inversão alarmante: o matador é alvo de admiração e o político de desconfiança. A desconfiança nos governantes conduz à descrença na cidadania, levando ao crime e às drogas. Os habitantes de Bacurau, em outra similitude com o nosso tempo, se drogam pesadamente.  

Etimologicamente, a palavra ‘assassino’ provém de bebedor de haxixe, pois a criminalidade e as drogas caminham juntas. Onde a força é liberada, o impulso sexual também o é. Esses dois impulsos são, em diversos momentos, emparelhados na película.  

Alguns acontecimentos dão sinal de que algo terrível está por vir, pois a tragédia de algum modo é, sempre, anunciada. Motoqueiros, mais parecendo vir de outro planeta ou de uma época no futuro, adentram a vila. O contraste é imenso. De um lado, a simplicidade do século passado e, de outro, os habitantes do futuro ou do espaço sideral. Coisas da pós-modernidade.

Os motoqueiros são parte de um grupo de norte-americanos e um alemão, amantes das armas e assassinos. Eles dão voz ao não dito, quando falam “nós não somos como eles (o povo de Bacurau). Somos como vocês, vivemos no sul e somos filhos de alemães e italianos”. Mas o grupo discorda, eles são tão negros, quanto qualquer negro.

O cerne da ação é o genocídio dos negros, estes identificados com o povoado de Bacurau, que de tão típico nos faz estendê-lo para boa parte da região nordeste e para todos os lugares, onde os mais simples se encontram. Bacurau são as favelas cariocas e todas as comunidades carentes. O diferente do rico e branco é tido como inferior e pode ser eliminado, sendo este só um pretexto para a liberação do ódio e da selvageria. A cultura, que convive com a morte, a fome, o abandono de crianças, a pilhagem do outro, é igualmente cruel.

Sendo a violência uma patologia grave, Bacurau, ao ser atacada, chama de volta seu louco criminoso. Ele, em uma cena tragicômica, louva esse momento, pois já estava faminto. Tinha fome de matar. É quando o terror de fato acontece. Uma das crianças que brincava assustando   outras com máscara de bacurau, encontra um deles no escuro, um dos assassinos, que não hesita em matá-la. Demônios existem, precisamos saber que aparência eles têm. 

O alemão aceita a desculpa do matador de que não era uma criança, mas um adolescente armado, argumento de sempre para a matança de jovens em nosso meio. Ele, o alemão, é chamado de nazista, se aborrece e responde que está há mais de quarenta anos nos Estados Unidos. O nazismo, com efeito, mudou de lugar e apagou seu nome.

Os textos freudianos referem que a civilização depende da repressão dos impulsos sexuais e agressivos. Isso, porém, não acontece sem sofrimento e gera um mal-estar contínuo. Os escritos kleinianos acentuam outro aspecto. Quando o sujeito não contém seu ódio e agressividade não se torna mais feliz, se torna louco. No início da vida, a relação com o objeto é construída sob a égide da angústia, e este é equiparado a um objeto mau e persecutório, porque a mente é cindida e funciona de um modo a expulsar os sentimentos hostis, depositando-os no outro. Se permanece assim, toda a relação com a realidade é perturbada, pois esse outro nunca é reconhecido em sua alteridade. No máximo se estabelecem dois grupos: um, identificado com o sujeito e considerado bom, até mesmo idealizado, e outro, portador de qualidades repulsivas devendo ser destruído.

O povo de Bacurau tinha sua história de lutas, afinal, há mais de quinhentos anos vivia em solidão. Descendia de antigos cangaceiros, bandidos nômades e insurgentes. Os supostos frágeis devolveram a violência com maior violência. Nessa ocasião estavam todos drogados. Nos tempos atuais devemos ser gárgulas, mas isso tem um custo.

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).

 

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