29.11.19 Observatório Psicanalítico – 133/2019

 

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

 

Homem (também) chora: a respeito da masculinidade tóxica

Márcio de Assis (SBPSP).

 

Alguns homens têm se reunido em rodas de conversa e grupos de discussão para debater a masculinidade. Buscam conversar sobre a origem e as mudanças necessárias (diria urgentes) de atitudes machistas. Relacionam-nas com a maneira como foram criados e as determinações sociais, históricas e estruturais que formam certo ideal masculino. Nesse contexto, o termo masculinidade tóxica tem sido usado para se referir aos comportamentos destrutivos de homens, sendo definido pelo conjunto de características e condutas que se espera deles: viril, provedor, emocionalmente sóbrio, equilibrado, sexualmente disposto, entre outras. Devido à amplitude do tema, poderíamos ir muito além dos elementos apontados. Mas, neste artigo, criticaremos de maneira breve a noção do “homem bom” que se coloca em contraposição ao “machista”. 

 

Da forma como é colocada, a masculinidade tóxica parece designar uma posição em relação ao gênero. Pela psicanálise, pensar em gênero implica articular os intrincados processos das sexualidades (teorias pulsionais, libido), das identificações, do meio cultural e histórico dos sujeitos. Se a sexualidade é, por princípio, bissexual e o desejo não possui um objeto inato, como descrito em “Três ensaios…” (Freud, 1905), pode-se pensar que tampouco há qualidades inatas às identidades de gênero, como indicado em “Introdução ao narcisismo” (1914), uma vez que o Eu é constituído pelos processos de identificação. O ideal de Eu, base moral e da lei para o sujeito (portanto, um imperativo), também desempenha papel importante na formação da identidade de gênero, pois é o responsável pelo julgamento do Eu, sua relação com as sexualidades e com os elementos da cultura. Quanto mais rígida a “medição” que o ideal impõe, menor a plasticidade do Eu para se representar e direcionar as pulsões. 

 

Assim, se um dos critérios de adoecimento é justamente a da não circulação (fixação) da libido por representações e objetos variados (investir, desinvestir e reinvestir), seria a masculinidade tóxica um adoecimento do masculino (gênero) por meio das fixações da libido em determinadas formas limitadas de satisfação pulsional, impostas por um ideal estreito e massacrante? Ao seguir esse caminho, torna-se necessário um afrouxamento dos ideais para discutir a performatividade da masculinidade, conceito descrito por Judith Butler (1990), a atuação “tóxica” frente ao mundo e a relação consigo mesmo (ao Eu tomado como objeto). 

 

As rodas e os grupos de conversas parecem atuar neste ponto: discutir os ideais e as características que compõem o homem. Sensível, cuidadoso, que compartilha tarefas e atividades domésticas são alguns dos atributos que passam a ser valorizados no “novo homem”. 

 

Entretanto, temos que ter cuidado com esse discurso, limitado de partida, por ser produzido no interior da própria lógica da masculinidade. Do contrário, simplesmente substituiremos ideais historicamente constituídos por outros, mesmo que de boa vontade. O delicado, “menos hétero” e que chora, pode, de igual modo, aprisionar e limitar o masculino. Homem também pode chorar, mas não seria menos homem quem não chora. As formas expressivas de cada um devem ser encontradas em suas singularidades, complementaridades e, mais ainda, na consideração da alteridade e dos efeitos de sua atuação em relação ao outro (incluímos aqui os efeitos do racismo e classicismo articulados com as questões de gênero, como propõe Angela Davis, [1981]).

 

As reflexões acerca da masculinidade tóxica e do machismo passam impreterivelmente pela confrontação que os movimentos feministas, histórica e politicamente, impuseram e impõem aos homens. Por meio de suas denúncias, revelou-se uma masculinidade marcada pela opressão, pela exclusão, pelo preconceito, pelo sofrimento e pela violência. Só se pode criar algum tipo de devir possível se a masculinidade se escutar continuamente em seus processos destrutivos por meio da alteridade e do diverso. 

 

Uma compreensão mais rica do feminismo, tomado como movimento político, não se resumiria à luta de um gênero, mas, antes, na defesa de todas e de todos pela vida e pela liberdade dos corpos.

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).

 

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