10.01.20 Observatório Psicanalítico – 137/2020

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

As meninas e o sono do mundo 

Ana Valeska Maia Magalhães (SPFor)

De repente, meninas começaram a desaparecer. Avisavam às famílias que passariam o fim de semana na casa de uma amiga – uma rotina comum na vida de qualquer adolescente. Porém, muitas voltaram somente para a despedida fúnebre. Vieram, então, os decretos das facções — anúncios de morte iminente, expostos nos muros do bairro onde moravam ou por intermédio das redes sociais. As sentenças são taxativas e as execuções das meninas no Ceará são efetivadas com requintes de crueldade. As imagens dos corpos são exibidas antes e depois da morte e mostram os ataques aos símbolos da feminilidade: cabelos raspados, seios arrancados, conforme declaração da psicóloga Daniele Negreiros, que integra o Comitê Cearense pela Prevenção de Homicídios na Adolescência, que tem como lema: cada vida importa.

Somente em 2018 foram 829 adolescentes mortos no Ceará. Os dados confirmam o que já sabemos: há ações de extermínio de jovens da periferia em nosso país. O fenômeno alvo da matéria da Folha e que circulou no último domingo em vários veículos de comunicação foi a estatística relacionada às meninas: um aumento de 400% no número de assassinatos na capital em relação a 2016.

Faço uma parada, respiro fundo. Este é um texto difícil, atravessado pelo absurdo da vida nua, que banaliza a morte de quem ainda estava começando a viver. Como escrever sobre o inaceitável? Retorno várias vezes ao começo da matéria, como numa tentativa de contar esta história de outra forma, incluindo personagens que ainda não apareceram, mas que seriam fundamentais. Em Cascas, Georges Didi-Huberman diz que convém saber olhar para as coisas como um arqueólogo, olhar e olhar várias vezes, pois sempre há mais para ver no que é visto, olhar como quem escava, até que as imagens nos forneçam um olhar de volta. No início da matéria há uma imagem. A avó de uma das meninas assassinadas segura entre as mãos uma fotografia em branco e preto da neta. A menina usa um chapéu de palha, tem os cabelos compridos, ela me olha fixamente e uma porta é aberta.

Clarice Lispector, na crônica ‘Mineirinho”, traz a história de um bandido morto pela polícia, alvejado por 13 tiros. “O décimo-terceiro tiro me assassina — porque eu sou o outro”, diz Clarice. Qualquer pesquisa séria em criminologia evidencia que é a própria sociedade que produz os seus criminosos. E o Brasil é marcado pelo ranço de uma tradição machista, escravocrata, latifundiária, homofóbica, predatória dos recursos naturais e mantenedora de privilégios elitistas. A questão social torna-se ainda mais grave quando o representante do país homenageia torturadores, pratica tortura psíquica, segue continuamente com agressões a direitos humanos historicamente conquistados e não recebe o repúdio da sociedade, pelo contrário, recebe uma autorização tácita para fazer o que bem entender, para abusar do poder, enfim, para romper o pacto social. A linha que separa a barbárie da civilização é cortada e permite a livre saída dos monstros internos daqueles que estão identificados com o líder.

Nesse sentido, nos cenários que intensificam a violência, o repúdio ao feminino retorna de suas ancoragens arcaicas, como nos séculos mais virulentos do patriarcado, marcados por práticas que cercearam a liberdade, vilipendiaram, torturaram e mataram milhares de mulheres. Como as bruxas medievais descritas no Malleus Maleficarum, as meninas de Fortaleza têm uma característica em comum: são consideradas ousadas e atrevidas. No ato de serem mortas, são humilhadas e descaracterizadas de sua feminilidade, transformadas em meninos sem falo.

Historicamente, o Brasil não fez o luto de seus crimes e de seus mortos, não cuidou das feridas de seus traumas. As lutas das minorias ainda passam ao largo da responsabilização coletiva. Nós não somos o outro. Georges Didi-Huberman diz que “a pedagogia da História é compreender que uma coisa passou e, no entanto, ela não passa. É aprender a saber o que é o passado, como isso passou e em que medida se passou em nós e ficou travado.” Por sua vez, Freud, em Recordar, repetir, elaborar aborda a repetição por oposição à rememoração. Esse passado não rememorado retorna em ato, “o doente repete esse ato sem saber que se trata de uma repetição.” Sabemos, a partir da clínica, que vencer a compulsão à repetição é uma tarefa árdua, que esse processo se dará na relação transferencial e não ocorrerá sem resistência. É necessário tempo, é necessário comprometimento. Obviamente, a psicanálise na clínica, como método, não será aplicada à trama das relações sociais. Mas talvez algo possa ser mexido, e a palavra resistência possa ser por nós deslocada da trama do sintoma para uma tomada de posição social responsável.

Freud afirmava que estava entre aqueles que incomodavam o sono do mundo. Ele perturbava a quietude dos que queriam ficar no mesmo lugar. Para os psicanalistas de hoje, vale repensar o nosso papel social em tempos de mutações. “As pessoas são fortes quando representam uma ideia forte, e tornam-se impotentes quando a ela se opõem”, disse o pai da psicanálise. Se a menina for o nosso espelho, há de se fazer uma escolha implicada, com responsabilidade. E é no amor que Freud aposta ao final do Mal-estar na civilização, ainda que vacilante e incerto acerca do porvir.

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).

Imagem: Menina com Caleidoscópio / Girl with a Kaleifoscope, 2008. Rian Fontenele

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