28.01.20 Observatório Psicanalítico – 138/2020

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo 

E nós, o que temos feito?

Juliana Lang Lima (SBPdePA)

Desde que me tornei mãe, minhas preocupações com o meio ambiente aumentaram consideravelmente. Ainda que já tomasse atitudes buscando reduzir impactos danosos, hoje me vejo mais atenta e assustada em relação ao que acontece no mundo. Compartilho algumas palavras inquietas na certeza de não estar só: da Amazônia à Austrália, estamos todos impactados e abismados diante de catástrofes que têm sua base na destruição do planeta operada pelas mãos do homem. Em uma recente leitura (A terra inabitável, David Wallace-Wells), meus questionamentos se depararam com o seguinte alerta: é pior, muito pior do que você imagina. Então, como é?

Estudiosos estimam que até o fim do século a temperatura média da Terra terá esquentado de 3 a 4 graus Celsius – o dobro do nível considerado seguro pelo Acordo de Paris (tratado climático elaborado pela ONU, assinado por 195 países comprometidos em fortalecer a resposta global às mudanças climáticas). Tal aquecimento trará pesadas consequências, incluindo degelo de calotas polares, alteração de ecossistemas e esgotamento de recursos naturais. Supõe-se que o impacto desencadeie migrações de pessoas desesperadas por lugares que ofereçam condições dignas de vida, incluindo alimentação e temperaturas aprazíveis.

Pareço alarmista? Escutem essa então: a geração dos nossos filhos talvez seja a primeira a viver menos que seus próprios pais. Movimento espantoso, de vez que a expectativa de vida vinha aumentando consideravelmente nos últimos anos. Se no século passado os jovens eram enviados para guerras para defender fronteiras, ao final deste estarão embasbacados diante do colapso climático que colocará à prova essas mesmas divisões. Seria isso um filicídio contemporâneo?

Para termos uma ideia do que iremos enfrentar no futuro, pensemos em como os movimentos migratórios produzem resistências nos dias de hoje. Um pequeno grupo de senegaleses já causa furor por onde passa, despertando fantasias e paranoias de toda ordem. Agora, imaginemos milhares de pessoas vagando em busca de água e comida. Ao que tudo indica, não estamos fazendo uso exacerbado da imaginação e projetando um cenário apocalíptico: há uma estimativa de que áreas habitadas por cerca de 120 milhões de pessoas sejam inundadas até 2100. Para o ano 3000, é esperado tamanho avanço dos oceanos que grande parte do Rio Grande do Sul e da Amazônia ficaria submersa. É pior, muito pior do que você imagina.

Pensemos no tema do filicídio, esse fenômeno universal, na maioria das vezes inconsciente, que se define pela violência dos mais velhos contra as crianças. Sendo estas um símbolo do futuro, representam continuidade e finitude. Oferecer-lhes um mundo em chamas equivale a amputar a possibilidade de sonhar livremente com o amanhã. É urgente que avancemos de posturas individuais para, então, engendrar ações coletivas, de forma a desmontar o sistema de crenças sedimentado em cada um de nós e que é mobilizado a cada vez que acreditamos que é só uma bituca de cigarro que repousa sobre o chão ou que ativismo é coisa de gente chata. Esse tipo de pensar baseia-se na lógica meritocrática, no pressuposto do direito ao conforto.

Sejamos honestos, contudo; privilegiados que somos, falamos de mordomias que todos temos dificuldade de dispensar: direito ao consumo, ao carro próprio, ao ar condicionado, à praticidade do descartável. Atitudes corriqueiras que passam despercebidas, especialmente quando inseridas em nosso cotidiano tão atribulado. Um exemplo singelo pode ser observado em nossas instituições, onde semanalmente são utilizadas centenas de copos plásticos que facilmente poderiam ser substituídos por canecas ou copos reutilizáveis.

Ao tentar localizar no google uma matéria que gostaria de citar aqui, digitei ‘aquecimento global’ e acabei sendo surpreendida pela opção ‘aquecimento global não existe’. Em tempos de retorno do terraplanismo, negar os efeitos nocivos do homem sobre a natureza não deveria causar espanto. Além do mais, somos todos cúmplices e partícipes desse duplo movimento de desmentida e destruição. Para além do canudinho de inox da moda e da sacola ecológica, é urgente repensarmos nossa forma de estar no mundo. E isso inclui lançar um olhar para áreas como descarte de lixo, alimentação, mobilidade urbana, consumo e tantas outras.

Diante do temor de que esse texto tenha ganhado teor excessivamente moralista, gerando culpa, reafirmo o desejo de que essa fala funcione como convocatória à ética, buscando, com o perdão do trocadilho, plantar sementes. Como antídoto ao patrulhamento, confesso: uso fraldas descartáveis em meu bebê e não abro mão de um bom churrasco. Em contraponto, ando me arriscando na bicicleta para ir até o consultório. Vamos juntos?

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).

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