31.01.20 Observatório Psicanalítico – 141/2020

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

Por que fazer uso do método investigativo é tão difícil quando o assunto é psicanálise de grupo e análise institucional? 

Any Trajber Waisbich (SBPSP)

Ainda causa estranhamento nas sociedades vinculadas à IPA a simples constatação de que o objeto da psicanálise não se limita, exclusivamente, àquilo que ocorre nas sessões individuais. A ideia de que o dispositivo de grupo e seu método podem ser incluídos no centro da teoria psicanalítica, e não na periferia, provoca desconforto em muitos psicanalistas. 

Apesar de neste círculo o tema ser tratado desta maneira, em universidades e em outros grupos psicanalíticos, o estudo e as práticas grupais ocupam um lugar de destaque na apreensão de realidades muitas vezes de difícil acesso na análise clássica. 

Freud, apesar de intuir a importância da grupalidade, não se ateve ao papel desempenhado por estas relações interpessoais na formação da subjetividade do sujeito. Ao mesmo tempo, afirmou que parte da formação do indivíduo se dá através da internalização destes outros significativos. Naquele momento, o foco da psicanálise direcionava-se a examinar o que ocorria ao interno do sujeito. Hoje, torna-se, cada vez mais evidente que psicanálise de grupo é uma teoria e uma prática não conflitante com o método psicanalítico.

Profissionais que justificam a não inclusão deste debate afirmam ser este um recurso “menor” destinado a absorver uma alta demanda por atendimento nas instituições. Defendem ser esta uma técnica de “alívio” e de “espera” por atendimento individualizado ou uma escolha puramente de caráter econômico.  Este é, no entanto, um ranço ideológico que culminou, na década de setenta do século passado, com o surgimento de vários institutos de grupo formados por psicanalistas oriundos das sociedades ligadas à IPA, mas que não puderam ter suas práticas referendadas por seus pares. Sou herdeira desta formação e precursora de uma inovação.

Uma das dificuldades em se ensinar e discutir psicanálise de grupo, por um lado, e validar o dispositivo, por outro, seja nos consultórios particulares, seja nas instituições, baseia-se na ideia de que bastaria ser psicanalista para exercer a função de coordenador de grupo.

Foi somente a partir de 2017 que se ofereceu pela primeira vez na história das sociedades filiadas à IPA, um seminário temático sobre psicanálise de grupo e análise institucional na grade do Instituto de psicanálise da SBPSP. Fato que demonstra esta ambivalência. Elejo minha experiência como coordenadora destes seminários como fato inédito e símbolo da luta pela sistematização de conteúdos e estudo do dispositivo e suas teorias, fazendo com que a inclusão das instituições psicanalíticas como objeto privilegiado de estudo abra novos horizontes teóricos, conceituais e práticos.

Não por acaso, as parcerias realizadas através da DAC – Diretoria de Atendimento à Comunidade – com várias instituições da sociedade civil ilustram esta transformação e implicam profissionais na necessidade de um aprofundamento de conhecimento.

Trabalho com grupo nas instituições e os seminários no Instituto Durval Marcondes possibilitam verificar a potência com que a ideologia e a história da Instituição imprimem marcas no funcionamento e na atmosfera do grupo. Outro fato interessante é que coordeno junto com uma colega um curso sobre grupos, instituição e população em situação de vulnerabilidade, direcionado para o público externo. A julgar pela quantidade de membros da Sociedade que se inscreveram e estão participando, podemos inferir a demanda reprimida de cursos desse tipo dentro de nossas instituições. 

A inclusão de conceitos grupais se impõe quando prática e teoria se encontram e provocam a conscientização dos profissionais de que esta é a melhor forma de se trabalhar com grupos e com as instituições. Esta visão auxilia a formação de movimentos coletivos necessário à democratização das relações pessoais e institucionais.  Se já não bastasse, a diferença se dá quando o profissional se arrisca e enfrenta o desafio de sair da assim dita área de conforto e enfrenta através de outros dispositivos a desigualdade de oportunidades que tem a população nas franjas das cidades. 

Coordenar um grupo significa lidar com múltiplas transferências, colocar o sujeito a conversar consigo mesmo e com o grupo. Implica numa interpretação que é singular e plural. Interpretar grupo significa trabalhar o sujeito que é formado pelo grupo, no grupo e que tem conflitos com o grupo. Implica trabalhar com instituições. 

Estas questões se evidenciam quando a intersubjetividade e a noção de vínculo passam a ser tematizadas. Trata-se da articulação deste sujeito formado na intersecção dos processos intrapsíquicos, intersubjetivos e vinculares. Reafirmo que a oposição entre indivíduo e grupo não foi jamais sustentada por Freud. As sociedades contemporâneas nos interpelam a pensar sujeitos e seus grupos e suas múltiplas interações. Que a Psicanálise possa ser ferramenta útil nesta tarefa.

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).

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