10.02.20 Observatório Psicanalítico – 142/2020

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

Vertigem… no Oscar

‘Democracia em Vertigem – Petra Costa’  

Dora Tognolli (SBPSP)

Antes de assistir ao filme/documentário mais recente de Petra Costa, fui submetida a várias classes de informações apaixonadas, inflamadas, a favor, contra, muito contra…

Como tem acontecido, preferi me proteger desses críticos de plantão, para deixar-me tocar pela recepção do filme tout court.

Meu primeiro ponto de parada é o titulo, Democracia em vertigem, o substantivo vertigem, ao lado de democracia: reconheço que esse título me agrada, concordando que o estado de vertigem, embora perturbador, se faz necessário, na vida, na politica, em tempos de embates. Acredito que a democracia não é algo dado por decreto, transcendente, mas que brota da polis, de cada sujeito, dos conflitos, da articulação dinâmica do poder. E que sempre pode ser interrogada.

A vertigem está em nós, diariamente, quando acordamos de noites bem ou mal dormidas, e nos perguntamos: onde estive? quem sou eu? Se tivermos boas condições psíquicas, a vertigem cotidiana é até um dom, pois contrapõe sonho e realidade, mundo interno e mundo externo. Quando a vertigem, agora de outra ordem, advém do confronto com o mal-estar que a realidade nos impinge, estamos falando da politica, do poder, e certas vezes, da violência.

Contraponho vertigem a terraplanismo, teoria regressiva e maluca que tem frequentado nosso país: num mundo plano, a vertigem parece não ser a experiência comum aos sujeitos. Linha reta, vida achatada, visão única. Quem não concorda, é atirado no abismo dos seres tectônicos, relegado ao quarto de despejo, ao sótão. Prefiro a vertigem, em especial acompanhada de outros que estão um pouco tontos com tanto mal-estar, como eu. E o filme de Petra não é plano…

Petra Costa nos oferece uma linha do tempo do Brasil recente, narrada com sua voz frágil e doce: narrativa em primeira pessoa, num fluxo emocional. Lembrei-me do filme de João Moreira Salles, No Intenso Agora: ambos trabalham o entrecruzamento entre os planos singular e universal, e nos dois localizo um clima de melancolia, até de certo fracasso, que acompanha o desenrolar dos fatos.

Petra faz uso de um arquivo de imagens bastante simbólicas: a construção de Brasília, retirada  de registros de sua avó rica; o movimento das Diretas; a passagem de Collor pelo Planalto e sua queda; e Lula, em diversos takes e momentos, que ela elege como herói e salvador; sua passagem pelo governo; a transmissão do bastão à Dilma, seu impeachment e as manifestações bizarras de um plenário ensandecido; a prisão de Lula.

Sou levada ao passado não tão remoto, e reconheço momentos e afinidades eletivas que me tocam muito, e emocionam mesmo tendo passado. O sonho de uma democracia, o sonho de um país mais justo e participativo, a aposta na saída da alienação de um povo castigado e pobre. E experimento uma sensação de fracasso, não tão atual, mas calcado em projetos e figuras de políticos que decepcionaram e não fizeram jus ao voto e confiança que lhes foram outorgados.

“É tudo verdade”: as imagens selecionadas revelam fatos históricos. Petra demonstra sua ética, ao se valer de arquivos reais; e deixa claro seu posicionamento politico, ao narrar o filme em off, entremeado com aspectos de sua história pessoal e familiar, onde revela seu recorte da realidade. Em sua biografia, há uma cisão, uma espécie de rachadura subjetiva, que ela tematiza com coragem e tensão. Descendente da alta oligarquia, que inclusive se beneficiou de Brasília e de seus políticos, e filha de militantes de esquerda, exilados, que homenagearam um de seus líderes colocando o nome dele na filha.

Compartilho do desencanto de Petra e do seu desejo de contar a história recente do nosso País, só que, diferente dela, meu desencanto vem de algum tempo, quando começou a ficar mais claro que o poder politico estava se corrompendo de forma perversa, e a politica, adquirindo uma certa errância. E a mencionada autocrítica, a meu ver, encontra-se ainda incipiente, revelando a dificuldade em rever posições equivocadas que o Governo tomou, em diversos mandatos.

Num après-coup, após Petra concluir seu documentário, parece que a Realpolitik em Brasília e seus gerentes têm piorado nossa decepção e nossa vertigem, colocando em risco a utopia de uma democracia, mais ética e justa.

O documentário de Petra nos representará hoje no Oscar. O Brasil começou a chamar a atenção recentemente não de forma elogiosa, mas a partir de manifestações estranhas, hostis e com tom de verdade última: a Amazônia, a cultura, as pautas religiosas, a educação, o Itamaraty: ideologias marcadas por retrocessos, atravessando as rampas do Planalto…  sem pedir licença.  Assim como vemos a Coreia do Sul a partir do filme Parasita, nos apresentaremos a partir da história de Petra Costa: a utopia de um projeto de cidade no Planalto Central, certa pujança, o ensaio da democracia, decepções e fracassos. O que importa, a meu ver, é o uso interno dessa história recente, a capacidade de autocrítica de todas as camadas envolvidas, e a reflexão sobre o fanatismo, que o filme não tematiza, mas tensiona.

Um convite para trabalharmos os restos incômodos de equívocos praticados e uma reflexão honesta e profunda sobre o País, que o filme Democracia em Vertigem pode catalisar.

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).

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