14.02.20 Observatório Psicanalítico – 143/2020

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

 

Adolescência primeiro

O que se queria dizer, o que se diz e o que faltou dizer

 

Bruna Paola Zerbinatti (SBPSP)

 

Foi lançada nesta semana, pelo Ministério da Saúde em conjunto com o Ministério da Mulher, da família e dos direitos humanos, a campanha “Tudo tem seu tempo”, visando diminuir a ocorrência de gravidez entre adolescentes. 

 

Grande polêmica se instaurou desde o anúncio do lançamento da campanha, em dezembro de 2019. Podemos pensar que havia algo que a Ministra Damares Alves queria dizer, considerando então  todas as suas entrevistas, o que ela afirmou e atenuou ao longo dos últimos meses (e todas as reações contrárias que angariou) e aquilo que  a versão veiculada esta semana efetivamente diz.  

 

A Ministra afirmou em entrevistas que a campanha tinha como um dos objetivos a abstinência sexual de jovens e o retardamento do início de vida sexual com foco em diminuir os índices de gravidez na adolescência. 

 

Podemos tomar isso como aquilo que a ministra queria dizer. Isso que se quis dizer foi e tem sido discutido pelos mais diversos profissionais de todas as áreas de nossa sociedade, com todo tipo de argumento, científicos, sociais e religiosos. Seja pelo viés de quem considera a prática sexual como parte da vida saudável ou de quem defende a abstinência, a questão sexual está colocada em pauta. Mais ainda: a sexualidade como tema também da infância e da adolescência. 

 

Neste momento, campanha lançada, pensemos no que efetivamente diz, para além das declarações da Ministra. Está escrito nos cartazes: “Adolescência Primeiro, Gravidez depois.” E, como um subtítulo: “Gravidez não combina com adolescência.” 

 

O que é a adolescência? Sabemos que a adolescência é um período um tanto conturbado, marcado por mudanças corporais e psíquicas, em que entram em primeiro plano as questões identitárias, com as oposições e desvencilhamentos das figuras parentais e procura de novos grupos e modelos identificatórios.

 

O psicanalista francês René Roussillon, em “Desafios da simbolização”, considera a adolescência como um trabalho de reorganização da psique a partir do impacto gerado pela irrupção da potencialidade orgástica da sexualidade. Para este autor, a potencialidade do orgasmo muda a relação com o prazer da sexualidade infantil e é tarefa da adolescência realizar um trabalho de simbolização nestas novas condições. Ou seja, podemos entender que as questões adolescentes possuem estreita relação com a sexualidade e não é a sexualidade de “engravidar”, mas a do prazer do orgasmo.

 

“Gravidez, depois”, diz a campanha: sugere-se que apenas em um momento posterior deveria vir a preocupação com um sexo com finalidades procriativas, somente “depois” a constituição de uma família e suas responsabilidades. 

 

Um problema que deve ser levado em conta é que, na maneira como a campanha está sendo veiculada, não há menção alguma a de que maneira esta gravidez pode ser evitada, o que vai de encontro aos propósitos pelos quais foi criada.

 

Portanto, se seguirmos não o que Damares afirma querer dizer, mas aquilo que os cartazes de sua campanha dizem, teremos que não está previsto aos jovens deixarem de fazer sexo ou o retardarem, já que a libido é constitutiva do humano, e a expressão da sexualidade é parte fundamental da adolescência, que deve vir primeiro. Em seguida, em um outro tempo, sim, os jovens devem se ocupar com as questões da gravidez e do nascimento ou não de filhos. O que faltou dizer, é exatamente quais são as possibilidades de fazerem isso, quais os métodos contraceptivos existentes, disponíveis e possíveis.

 

Que nossos jovens possam então, como diz Roussillon, fazer o “trabalho da adolescência”, com toda a dor e delícia presente em todo trabalho e em toda adolescência!

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).

 

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