19.02.20 Observatório Psicanalítico – 144/2020

Observatório Psicanalítico – 144/2020

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

Ataques à imprensa, ciência, grupos sociais e instituições: 

aonde nos levará o bolsonarismo?

Helena Daltro Pontual (SBPSP e SPBsb)

Antes de exercer a psicanálise fui jornalista em Brasília e fiz a cobertura da Presidência da República, do Congresso e de ministérios. Por experiência própria, sei que o exercício do jornalismo sempre incomodou e sempre incomodará qualquer regime autoritário, pois a imprensa/mídia desenvolve um trabalho essencial para a sociedade e a preservação da democracia, mostrando em palavras e imagens o contraditório, as várias versões dos fatos e repercussões de uma realidade intolerável para muita gente.

Foi assim na ditadura, quando houve fechamento do Congresso e censura pesada à imprensa, além de mortes, torturas e perseguições aos opositores do regime. O jornalista Vladimir Herzog foi uma dessas vítimas, torturado e assassinado no Doi-Codi de São Paulo, fato que teve enorme repercussão e mobilizou a sociedade civil. No momento atual, o autoritarismo foi escolhido pelo voto e funciona ao vivo e a cores.

O ataque contínuo carregado de agressões e humilhações feitas pelo presidente da República aos jornalistas tornou-se corriqueiro na porta do Palácio da Alvorada. Ele desqualifica, agride, humilha, faz gestos nada republicanos e ainda é aplaudido por uma claque de seguidores, o que o reforça na intimidação e diminuição do trabalho da imprensa. Mas a agressão feita à jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha de São Paulo, com uma insinuação sexual sobre seu trabalho, passou de todos os limites. Além da vulgaridade de seus gestos e declarações, o presidente incorreu em crime de difamação e contra a honra da jornalista, além de crime de responsabilidade, no que tange a honra e o decoro do cargo que ocupa.

A misoginia e o ataque à imprensa são parte de um iceberg que avança de forma preocupante. O presidente desqualifica a ciência ao demitir, de forma humilhante, pela televisão, o físico Ricardo Galvão do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) porque este mostrou o crescimento do desmatamento da Amazônia. Ataca índios e os ameaça com o desmonte da Funai e a defesa do lobby da mineração e do ruralismo predador. Defende a condecoração de milicianos criminosos e desqualifica o trabalho da Polícia Federal. Nomeia um ministro da Educação que mal sabe escrever e ataca a cultura de forma impiedosa. Fazendo coro com o presidente, o ministro da Economia ofende grupos sociais. Como se tudo isso não bastasse, há ministros que acreditam ser a terra plana e que vivenciaram alucinações.

A paranoia permeia o governo eleito por muita gente que chamou o presidente de “Mito”. Começou aí, com essa firme crença de grupos de brasileiros na onipotência humana. O então todo poderoso não pode ouvir o contraditório e os perseguidores são todas as pessoas e grupos que manifestam seus pensamentos, noticiam fatos, opiniões ou mesmo pesquisas científicas que contrariam as certezas tão arraigadas do presidente. Em trabalho sobre a estrutura psíquica da mente totalitária, o psicanalista Luiz Meyer (SBPSP) observa que tudo o que for particular – eu diria aqui diferente e pessoal vindo do outro – torna-se perigoso para esse sujeito, o que aciona imediatamente sua racionalização paranoide. Segundo Meyer, esse particular nem precisa confrontar o objeto, basta existir, isto é, não ser um reflexo imediato desse sujeito, para se converter em discordância, atrair a desclassificação e, consequentemente, a perseguição. 

Ou seja, ele se opõe a qualquer indagação, que é de pronto ignorada, desprezada e atacada.

Sobre a claque que o aplaude na porta do Alvorada, nas redes sociais e em outros lugares, podemos pensar, como sublinhou Meyer, que a mente totalitária necessita de um seguidor que tenha uma identidade “contínua”. O self desse seguidor torna-se mecânico e, se vier a experimentar algum conflito, será sempre dentro do campo proposto e delimitado pela ideologia. “O conformismo do selfdo seguidor é coextensivo ao totalitarismo do self do mentor”, diz Meyer.

Em outro trabalho sobre fanatismo, ódio e narcisismo de morte, o psicanalista Carlos Augusto Ferrari Filho (SPPA) cita Amoz Oz, que considera características do fanático a forte e inabalável crença de que a própria visão é a melhor e a determinação de impor seu pensamento, ainda que por meio da força e, em casos extremos, da aniquilação de quem pensa diferente. Ele tenta anular o outro por meio da tentativa de restringir a capacidade de pensar, o que provoca um empobrecimento intelectual e um nivelamento por baixo que ataca a capacidade criativa.

Em suma: o que o fanático/autoritário ama é a ausência das diferenças, o que ele odeia é o outro, em especial o direito de pensar diferente. Com que propósito esses ataques ao pensamento, aos vínculos, à ciência e às instituições estão sendo feitos? O sentimento é de profundo desconforto e perplexidade para os que não são da claque, ou seja, a maioria dos brasileiros. O desafio do país, entre outros, é não se deixar dominar por uma pulsão de morte que aumente ainda mais a miséria e turbulência sociais, nos impedindo de mudanças efetivas e até mesmo da preservação da democracia.

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).

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