13.03.20 Observatório Psicanalítico – 149/2020

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo 

 

Procurando Laços

 

Bernard Miodownik (SBPRJ)

 

No dia 20/03 teremos o primeiro evento preparatório ao Congresso Brasileiro de Psicanálise que se realizará na cidade de Gramado-RS em 2021. As 3 Sociedades gaúchas (2 de Porto Alegre e 1 de Pelotas) generosamente se dispuseram a organizar esse evento junto à Diretoria Científica da FEBRAPSI.

 

O tema do Congresso, Laços: o Eu e o mundo, teve como uma das bases teóricas para a sua escolha o texto de Freud Psicologia das massas e análise do Eu, que em 2021 completará o centenário de publicação. Algumas das leituras possíveis do texto têm pontos de contato com o que vem se debatendo aqui no Observatório Psicanalítico (OP) e no mundo.

 

Uma dessas possibilidades é vê-lo em conjunto com o texto de 1920 Além do princípio do prazer, ambos como tentativas de Freud de compreender – dentro da sua ótica da psicologia individual – quais as origens das guerras prolongadas e insanas como a que ele há pouco sentira na própria pele. Neuroses traumáticas, compulsão à repetição, massas humanas que se envolvem em movimentos como a 1ª Guerra Mundial que começam não se sabe bem como nem porque, e se propagam como ondas em maré crescente, arrastando o que vem à frente e potencializando a própria destrutividade.

 

Dois textos que não falam um ao outro no papel, mas tocam em aspectos complementares: o que não encontra ligação em Além do princípio do prazer e o que procura ligar em Psicologia das massas. Importante esclarecer que me refiro à pulsão que não encontra a ligação, diferente do que se considera a pulsão de morte como a que desliga. Entendo que esta é energia pulsional que não formou representação por não ter achado um objeto que a recebesse. No dizer de Fairbairn, é a libido que não encontrou o objeto que procurava e não criou laços.

 

Concluída a Revolução Industrial, a segunda metade do século 19 conheceu mudanças profundas e cada vez mais rápidas na geopolítica, no crescimento das cidades, nas relações entre classes sociais, nos hábitos de consumo e no que conhecemos como subjetividades individual e coletiva. O mundo em que a Psicanálise passou a existir.

 

Mudanças aceleradas fraturam estruturas estabelecidas e os papéis definidos dos indivíduos. “Tudo que é sólido desmancha no ar”. Sujeitos que lidam de forma rígida consigo próprios ou com os outros, ou aqueles falsos-self, ficam “sem chão” e revivem desamparos primitivos, muitas vezes associados a desamparos socioeconômicos. À perda de status formam-se hordas de ressentidos, como Roosevelt Cassorla e muitos outros colegas têm apontado aqui no OP.

 

O século 20 foi pródigo em transformações radicais de estruturas estabelecidas. Não sem razão foi palco de duas guerras mundiais e de uma pletora de regimes ditatoriais de ideologias diversas. As percepções de Freud em Psicologia das massas nos ajudam na tentativa de compreender a adesão, em parte forçada, de uma massa humana ao estado de guerra ou a uma ditadura, assim como os motivos da aceitação inicial a esses regimes de governo, que até nos levam a pensar na presença de uma servidão voluntária.

 

De uma forma resumida, provavelmente simplista, se pode dizer que os estados de desamparo liberam as pulsões das representações antes firmadas. Pior, trazem à superfície pulsões que jamais alcançaram representações, e que permaneciam circulantes, em aparente silêncio, nos estados dissociados do psiquismo. Ao encontrarem líderes carismáticos que aglutinam irmãos em sofrimento, essas pulsões agora têm um objeto para chamarem de seu, e que possibilita alguma representação psíquica através da identificação primária. Apesar disso, um laço. 

 

Líderes que trazem a salvação através do amor idealizado como na Igreja, ou pela guerra de ódio ao inimigo externo como no Exército, ambos grupos artificiais que Freud apontou. Papéis intercambiáveis, pois os exércitos também se engajam em missões humanitárias, e os fundamentalismos de qualquer religião clamam por guerras santas. A massa só persiste nesse tipo de vínculo enquanto é mantida no estado regredido da identificação primária. Daí os ataques sistemáticos de lideranças autoritárias, independente da ideologia, à curiosidade, ao pensamento e ao conhecimento para que ninguém se insurja, como na letra de Torquato Neto, a “desafinar o coro dos contentes” e venha propor ligações mais complexas e simbolizantes, os laços fortes.

 

A explosão democrática após o término (provisório?) da Guerra Fria, trouxe no seu bojo uma impressionante revolução tecnológica que modificou drasticamente noções de tempo e de espaço, fora outros aspectos mais cotidianos que atingem diretamente as estratégias de sobrevivência física e psíquica, objetivas e subjetivas. 

 

Melhorias surpreendentes à humanidade como um todo convivem lado a lado com carências e desigualdades (socioeconômicas e psíquicas) desnorteantes. Novas subjetividades acompanhadas de novos-antigos desamparos. Grassa o ressentimento, canais de ódio se exacerbam. Populismo, nacionalismo, xenofobia, segregacionismo. O resto dessa história todos conhecem.

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).

 

Imagem Alexander Caldes – Constellation 1943 – Museo de la Reina Sofia. 

 

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