24.07.18 Observatório Psicanalítico 61/2018

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

Porque era ele, porque era eu…

Beth Mori (SPBsb)

 

Acordamos no dia de ontem, 20 de julho, o Dia do Amigo, trocando mensagens de ternura com amigos. Numa dessas, os poetas Milton Nascimento e Fernando Brandt nos lembram que: “amigo é coisa para se guardar. Do lado esquerdo do peito. Mesmo que o tempo e a distância digam “não”. Mesmo esquecendo a canção. O que importa é ouvir a voz que vem do coração”.

O sentido da amizade comparece nas práticas sociais como um afeto relacionado ao amor fraterno. A ideia de fraternidade, expressa na Declaração dos Direitos Humanos, afirma que nascemos livres e iguais em dignidade e direitos. Define o ser humano como um animal político que, ao fazer uma escolha consciente pela vida em sociedade, estabelece com seus semelhantes uma relação de igualdade. Fraternidade, portanto, é um conceito fundamental na configuração da cidadania entre os seres humanos, pois, por princípio, todos somos iguais.

Mas… O que seria de Riobaldo sem Diadorim, em Grandes Sertões: Veredas?

Guimarães Rosa dá fala a Riobaldo: “Amigo para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual para o igual, desarmado. O de que tira prazer de estar próximo. Só isto; quase; e todos os sacrifícios. Ou – amigo – é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é. Amigo meu era Diadorim; era Fafafa; o Alaripe; Sesfrêdo.”

Mas antes disso, foi o louvor à amizade, de Michel de La Montaigne, escritor e ensaísta francês do século XVI, dirigido ao amigo Étienne de La Boétie e expresso no Ensaio “Da Amizade” que eternizou-se nas páginas da literatura:

“Na amizade, a que me refiro, as almas entrosam-se e se confundem em uma única alma, tão unidas uma à outra que não se distinguem, não se lhes percebendo sequer a linha de demarcação. Se insistirem para que eu diga por que o amava, sinto que o não saberia expressar senão respondendo: porque era ele, porque era eu”.

Na Psicanálise, em Totem e Tabu (1917), Freud pensará a origem dos laços sociais ou fraternos como decorrentes da renúncia pulsional e da instauração da lei. O sentimento de fraternidade surgiria como um efeito secundário, a partir de uma rivalidade originária entre irmãos, derivado da triangulação edípica. E a agressividade, portanto, também deve ser recalcada.

Em 1921, em “Psicologia do grupo e análise do ego”, Freud abordará a raiz sexual dos laços sociais e fará um contraponto entre a sensualidade (ou amor sexual direto) e a ternura (pulsão sexual inibida quanto ao alvo). Essa última, presente na ternura e na amizade, como um produto do recalque do amor da criança pela mãe, da atenuação do prazer sexual, devido à interdição paterna.

Sabemos que amor sexual e a amizade podem estar juntos ou separados. Costuma-se dizer que são características próprias da amizade: a não exclusividade, a ausência dos desejos eróticos, a reciprocidade e a liberdade. E que a ruptura do laço amoroso é quase sempre seguido de perda e dor, diferentemente das relações de amizade que muitas vezes se dispersam sem qualquer sofrimento emocional.

Será sempre assim?

Freud, na sua última entrevista, conduzida por George Sylvester Viereck, publicada em 1930 no seu livro “Glimpses of the Great” e republicada no livro: “A Arte da Entrevista: Uma Antologia de 1823 aos Nossos Dias,” organizado por Fábio Altman (Scritta, 1995), nos dá uma pista:

“Não me revolto contra a ordem universal, afinal vivi mais de setenta anos. Eu tive o que comer. Desfrutei de muitas coisas — do companheirismo da minha esposa, dos meus filhos, do pôr-do-sol. Eu vi as plantas crescerem na primavera. Algumas vezes recebi um aperto de mão amigo. Uma ou duas vezes encontrei um ser humano que quase me entendeu. O que mais eu posso querer?”

A amizade é o reconhecimento da minha existência pelo outro. É o amigo que me confirma. Amigos são poucos. E a amizade parece exercer papel importante no nosso desenvolvimento quando se constitui como uma espécie de bálsamo diante de todas as perdas e sofrimentos da vida…

(Os textos publicados são de responsabilidade dos seus autores)