14.08.18 Observatório Psicanalítico 65/2018

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

Luis Kancyper

José Carlos Calich (SPPA)

Quando se perde um grande amigo, vai-se uma referência, vai-se intimidade, vai-se história, vai-se um pedaço.

Quando esse grande amigo é iluminado, vai-se um facho de luz, um farol.

Luis Kancyper era um homem iluminado. Culto, agradável, generoso, sincero, com enorme capacidade intelectual, talento expositivo – verbal e escrito – e grande sensibilidade no contato com os outros.

Conheci Luis há aproximadamente 20 anos. Passamos a nos encontrar e jantar juntos sempre que estávamos na mesma cidade, o que foi se tornando cada vez mais frequente e prazeroso. As facilidades do contato por e-mail e telefone aumentaram as trocas sobre todo tipo de assunto, desde temas psicanalíticos de nosso interesse, a nossas ideias e vidas pessoais.

Luis era médico, psicanalista e membro titular com funções didáticas da Asociación Psicoanalítica Argentina (APA), onde era professor de seu Instituto de Psicanálise, tendo sido também seu Secretário Científico.

Era considerado um ótimo analista, professor, supervisor e um escritor superlativo. Publicou onze livros de sua autoria, traduzidos a outros idiomas além do espanhol, participou com capítulos em outros tantos e produziu um grande número de artigos para revistas de Psicanálise argentinas, brasileiras e internacionais.

Seus temas principais foram a amizade do ponto de vista psicanalítico, o confronto geracional, o ressentimento, a adolescência e o complexo fraterno – um dos primeiros autores psicanalíticos a desenvolver o tema de um complexo que complementa o Complexo de Édipo. Porém, na base destes temas estava seu interesse pela família e suas configurações, o narcisismo e a alteridade, a metapsicologia, o ódio, a paixão e o amor.

Em seus escritos transitava pela literatura de forma consistente e esclarecedora. Escreve, dentre outros, sobre Jorge Luis Borges, Albert Camus, Franz Kafka e Sandor Marai. Era um conhecedor da cultura judaica e suas fábulas. Esse conjunto amplo de conhecimento e interesses permitiu que sua obra se movimentasse entre o real e o fantasiado, o presente e o ausente, a vida e a morte, o concreto e o simbólico, produzindo figuras e metáforas que tornaram seus textos atraentes e pujantes.

Não só gostava de escrever, como dizia que escrever era um ato vital, que lhe ajudou muito em momentos muito difíceis que passou em sua vida. Dizia que sua vida era alimentada pelo amor recíproco que tinha com sua esposa Judith, com seus filhos, netos e amigos.

Sobre a amizade – seu último livro e um tema original em psicanálise – suas reflexões falam de uma capacidade que necessita de um processo, que envolve admiração, empatia não- possessiva e confiança. Fala na relação entre afetos e o poder. Sobre a diferença entre ter amigos verdadeiros e estar com um outro para não perder a ele ou ao poder que representa, não para amá-lo ou compartilhar. Sobre aqueles que não podem ter amigos e criam inimigos constantemente ou que necessitam sempre uma comparação.

Uma vez me escreveu: “Un amigo duplica las alegrías y divide las tristezas por la mitad”.

Todos perdemos a Luis, seus ensinamentos, convívio e luz. Teremos seu grande legado, mas vamos ter que nos acostumar a essa nova escuridão.

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).