10.09.18 Observatório Psicanalítico 67/2018

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

A presença do horror

Flávio Thamsten (SPRJ)

Como psicanalistas cabe-nos olhar os fenômenos, os acontecimentos em sua complexidade sócio-psíquica. O recente incêndio do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, impactou-nos por uma verificação: a fogueira em que estamos imersos. Apontou-nos para a gravidade de uma sociedade que esconde de si própria uma realidade cruel, desumana, quando o povo é flagelado quer pelo trato dado à educação, quer pela desatenção à saúde, quer pela constância de ataques à sua economia, roubando-lhes conquistas diuturnamente feitas. Cada um de nós viu-se no centro desse fogo, sentindo as labaredas que nos consomem, na constância dos riscos em transitar em liberdade, em usar os direitos de ser cidadão, de ser um Ser pensante.

Sim, incêndio que vem devastando nossa sociedade, apequenando as mentalidades, constrangendo as competências, assassinando futuros. Vimos queimar não apenas o registro dos caminhos trilhados pela civilização mas, muito além, as possibilidades de um futuro. Não nos doeu simplesmente a dor de um passado perdido, mais além, do trabalho de construção dos artefatos culturais, do gigantesco esforço em lidar com o mundo, em tentar entendê-lo, movimento esse onde a palavra amor ganha sentido, como realização em prol de uma coletividade.

Tivemos de ver aquilo que já sabíamos, que sempre esteve e está à nossa frente – a verdade fez-se pelas labaredas, pelo fogo abrasador, cortante, gritante. Verdade essa que vem sendo reprimida pelo engodo, pela mentira, pelo uso mesquinho dos utilitaristas do terror. 

Quão próximo de nós está o holocausto!

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