12.10.18 Observatório Psicanalítico 70/2018

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

Viva la muerte, abajo la inteligencia!
ou O eterno fascismo

Ney Marinho (SBPRJ)

 

A Valton de Miranda Leitão
A Olívia e Rafaela

Hoje, dia 12 de outubro, dia da criança, acordei e li o jornal e suas tristes notícias, assim como recebi duas mensagens que me animaram a prosseguir o dia. Uma, de Valton de Miranda Leitão em que faz uma lúcida e como sempre brilhante crítica da impossível neutralidade neste atual momento. Outra de Sergio Nick, a quem agradeço a importante dica, sobre um artigo na Revista Época, que o colega não costuma ler pelos mesmos motivos que eu (um insuportável mal estar com a falta de caráter – isto é: ausência de qualquer postura que permita um diálogo – deste tipo de imprensa). Lido o artigo de Ruy Fausto, aventurei-me temeroso pelas páginas seguintes e deparei-me com o erudito texto de um amigo bissexto: Muniz Sodré – talvez, não por acaso nossas netas são grandes amigas, Olívia e Rafaela, sem saber de nossas histórias. De fato, temos que aprender com as crianças, como nos lembram Beth Mori e Claudio Eizirik!

É do texto de Muniz Sodré que retiro o título deste breve artigo. Muniz Sodré nos recorda que neste 12 de outubro também se comemora um famoso episódio da guerra Civil Espanhola. Portanto, a frase acima não se trata como muitos poderiam imaginar de alguma frase infeliz do Capitão Bolsonaro, mas sim de um General … Millán-Astray, um dos desencadeadores do levante fascista que iniciou a guerra civil espanhola contra o governo socialista republicano democraticamente eleito. Com esta emblemática frase os partidários e o próprio general Astray interrompiam na Universidade de Salamanca o discurso do reitor Miguel de Unamuno – um dos mais importantes filósofos espanhóis, basco, estudioso de paradoxos, autor do Sentido trágico da vida, representante do existencialismo cristão – na cerimônia do dia do Festival da Raça! Unamuno até pouco tempo havia apoiado o movimento franquista, dadas as arbitrariedades dos republicanos, mas havia mudado. Após ouvir as violentas falas dos franquistas, sugerindo extirpar bascos e catalães com “um câncer no corpo da Nação”.

Disse o filósofo: “Todos vós estais pendentes das minhas palavras. Todos me conheceis e sabeis que sou incapaz de me calar. Há momentos em que calar é mentir”. (negrito nosso; para mais detalhes: ver A Guerra Civil Espanhola, vol. II, p. 48-50 de Hugh Thomas. Rio: Civilização Brasileira, 1964, ou, o artigo citado de Muniz Sodré). O restante é uma bela e enérgica defesa da diversidade, dos catalães e bascos, da Espanha de Cervantes e não da violência e do ódio. Unamuno saiu dali para uma prisão domiciliar, tendo falecido por problemas cardíacos no último dia daquele ano. Naquele território já ocupado pelas forças de Franco, no mesmo dezembro, “os livros de tendências socialistas ou comunistas tinham ordem de serem destruídos por medida de saúde pública.” Foi a derrota da inteligência, prenunciando a II Guerra Mundial e anunciando a ditadura franquista que durou de 1939 a 1975 (36 anos!).

Não posso continuar para me manter nas 500 palavras, mas neste dia das crianças quero lembrar outro grande autor – Umberto Eco – que conta de sua infância na Itália fascista num belo texto: O Eterno Fascismo (in, Cinco Escritos Morais). No mesmo texto deixa clara “a semelhança de família (noção que usa de Wittgenstein)” entre o Salazarismo, o Franquismo e o Fascismo italiano. O que desejamos chamar a atenção é que para que haja um verdadeiro diálogo devemos expor com clareza nossas propostas e ideias, quer sejam socialistas, social democratas, fascistas, anarquistas, ou, qualquer outra, ou mesmo, um amplo acordo de diversas tendências em torno da defesa da democracia, como é a nossa proposta da geringonça brasileira. Evidentemente os fascistas estão fora desse diálogo, embora tenham todo o direito de concorrer democraticamente, colocam-se fora porque com disse Unamuno, recusam-se ao debate de ideias. Tal como está ocorrendo no momento em nosso país. Daí, não haver lugar para a neutralidade, como aponta Valton, a decisão é entre: um amplo projeto democrático de coalizão e um projeto excludente de declarada orientação militarista e fascista.

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