20.11.18 Observatório Psicanalítico – 74/2018

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

O Quilombo Campo Grande

Mariangela Relvas (SPRJ)

Sem adentrar em aspectos jurídicos que envolvem a decisão do despejo das 450 famílias moradoras no Quilombo Campo Grande em Ariadnópolis, em Campo do Meio-MG, minha reflexão como psicanalista se dá sobre as consequências psíquicas da intolerância e a questão do narcisismo das pequenas diferenças que nos desafia a reconhecer o que há de mais irracional em nosso inconsciente. (FREUD, 1930).    

No Brasil, os quilombolas lutam há séculos por um reconhecimento legal de sua existência. Possuem características próprias como comunidades autônomas, onde a população pode se orgulhar de suas tradições, das manifestações culturais originais e, assim recuperar sua autoestima e cidadania.

Segundo Milton Santos, “o território é a base material sobre a qual a sociedade constroi e produz sua história”. (SANTOS, 2007)

Ao expulsá-los da terra, não podemos deixar de lado, ainda, a questão da responsabilidade pelo desamparo das crianças que ao perderem seu lugar de origem e referencial identificatório e simbólico, podem apresentar grandes dificuldades para elaborar a violência e a desestruturação social e familiar.

São os Tupiniquins do norte do Espírito Santo que traduzem bem a relação da terra com o sagrado, ao dizer que “quando destruímos as matas, estamos também expulsando igualmente as divindades que nelas vivem.”

O preconceito em relação a essa população marginalizada, que já foi desterritorializada de diversas formas, é constantemente realimentado em nosso imaginário. Ter clareza desse fato e combatê-lo é fundamental para a construção do processo democrático e da verdadeira cidadania.

Freud nos chama a atenção para o fato de que “ao menosprezar e hostilizar o diferente e ao desmentir a diversidade, certos povos promovem, a partir do narcisismo das pequenas diferenças, no âmbito social, situações repetitivas de crueldade e sadismo”. (KANCYPER, 2018, P. 39)

O tema é de grande relevância, pois nos chama a atenção sobre a importância da tomada de consciência para enfrentar uma realidade na qual atribuímos a demonização ao desconhecido considerado um “quase semelhante”. A intolerância se manifesta nas pequenas diferenças, na qual o outro é o estranho, o intruso, o expropriador das nossas terras. (FREUD, 1939) 

A psicanálise deve contribuir com um pensamento mais independente ao estabelecer marcos de discussões sobre as consequências da desestruturação causada pela situação de vulnerabilidade social extrema.

Outra questão importante é examinar condições de exequibilidade de escuta do sofrimento e da narração dessa experiência traumática que, não elaborada nem resolvida, resulta em mais violência e destrutividade para as futuras gerações do nosso país. Além disso, é urgente a necessidade de atenção e políticas públicas voltadas para solução desse problema.

O conhecimento psicanalítico nos permite usar ferramentas que valorizam o diálogo e a reconciliação para buscar alternativas mais adequadas.

Portanto, temos um enorme desafio pela frente para enfrentar a realidade dos fatos que não deve ser desmentida ou tratada com descrédito, pois ao contrário, estaremos condenados à repetição da historia.  

“Pensar é intrinsecamente uma atividade subversiva por ser um ato que ameaça todas as versões oficiais do direito e da ordem – questiona a ‘história oficial’.” (HANNA ARENDT, 1951) 

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