10.12.18 Observatório Psicanalítico – 78/2018

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

Escola sem partido: a onda conservadora

Anne Pfluger ( SPPA)

Liberdade, liberdade

Abre as asas sobre nós

E que a voz da igualdade

Seja sempre a nossa voz ( Vários autores,1989)

 

O samba enredo da carioca Imperatriz Leopoldinense, prestes a completar 30 anos, surgiu para se comemorar os 100 anos da República Brasileira. Não há dúvida que neste refrão há um forte apelo pela liberdade e busca de maior igualdade social, e talvez seu enorme sucesso se deva ao grito entalado na garganta dos anos de restrições das liberdades individuais e coletivas.  Mas, se é este o conteúdo do refrão, o restante se mostra pleno de contradições com que convivemos nestes anos, contradições a ver com uma república (res publica, do latim, coisa pública) proclamada a partir do descontentamento:

  • da Igreja Católica frente às interferências de D. Pedro II nas suas decisões;
  • do Exército;
  • da classe média, desejosa de maior ascensão econômica e participação política;
  • dos grandes proprietários, inquietos com um sistema escravagista que já se revelava obsoleto diante das modernas relações capitalistas de trabalho.

A República nasce pelas mãos dos militares, aos quais se juntam grupos seguidores da filosofia positivista de Augusto Conte resumida no lema Ordem e Progresso. Contudo, para as populações das camadas mais humildes não houve nenhum favorecimento com sua proclamação. Tampouco escravos e descendentes de escravos receberam algum tipo de reparação ou direito à propriedade.

Um pequeno texto de resgate histórico como este poderia ser utilizado numa sala de aula a partir da possível aprovação do projeto encabeçado pelo movimento Escola sem partido? Ou o professor poderia ser denunciado por pais e alunos, e a partir disso ser processado?

Os defensores dessa ideia dizem que a grande contribuição da Escola sem partido é deixar claro os critérios que o professor deve seguir em sala de aula. O professor deveria se ater ao seu papel: sem emitir opinião, expor apenas o conteúdo estabelecido pelo projeto pedagógico. Para tais defensores, as crianças não saberiam diferenciar o que é fato do que é opinião, sujeitas, portanto, à doutrinação ideológica.  Afirmam que a ideia não é de perseguir professores e que a relação entre professor e aluno deve basear-se na confiança e na ética.  Contudo há assuntos que não poderiam ser abordados pelos professores, entre esses os que envolvessem moral, religiosidade e sexualidade.  Esses pertenceriam ao âmbito familiar.  

Um questionamento que emerge é se esse movimento não tenderia mais para uma escola de um único partido ou uma lei da mordaça, que impediria a liberdade de um professor ensinar seus alunos conforme as curiosidades destes, se entregando ao processo criativo do ensino e do aprendizado no qual são essenciais o vínculo de confiança e a convivência com as diferenças. Ademais, os defensores da Escola sem Partido acrescentam que todo conteúdo deve ser apresentado em pelo menos duas versões históricas, o que levaria ao risco de um inadmissível retrocesso, pois há assuntos que gozam de um consenso humanitário. Por exemplo: o holocausto sofrido pelo povo judeu.

O curioso é que, neste movimento e na lei prestes a ser votada, não vemos a contribuição de educadores, pedagogos, pediatras, psicólogos e psicanalistas. Esses não são chamados para a discussão e o diálogo. Ainda mais, há o ataque às ideias de Paulo Freire, patrono de nossa Educação e um dos autores mais lido por educadores ao longo de seus processos de formação. Freire sempre defendeu o diálogo como o caminho para o respeito a todas as visões de mundo. Para ele “o objetivo do ensino é justamente que cada aluno cresça como um sujeito crítico, construindo sua concepção de mundo e compreendendo que não há verdades absolutas, mas, sim, visões com as quais devemos dialogar” (H. Borges, 2018)

Nos meus anos de trabalho com crianças e adolescentes, me deparei com professores muito interessados no desenvolvimento dos seus alunos, buscando orientações sobre a melhor forma de lidar com os inúmeros problemas comuns num ambiente escolar. 

Uma dessas questões é da sexualidade sempre pulsante. Nosso colega Favalli em comentário feito no OP nos disse que os moralistas de plantão “…falam como se a sexualidade surgisse nas inocentes crianças por indução de adultos perversos” e “…desde 1897 esta tese caiu por terra. A presença da sexualidade infantil é uma das pedras fundamentais da psicanálise. A conduta hipócrita que visa negar este fato apenas tem contribuído ao desenvolvimento da psicopatologia. Portanto, cabe à família e, por extensão, à escola ajudarem crianças e jovens a conhecerem e a lidarem melhor com sua própria sexualidade, aliviando-os das inerentes angústias que daí podem decorrer.”

Crianças testam a confiabilidade do adulto, do professor e, quando este adulto é confiável, se entregam ao processo de aprendizado. É numa relação de confiança e afetividade que este ocorre. O que restaria da confiança caso aluno ou pais se tornassem delatores daquilo que seria considerado doutrinação? 

Lembramos de Winnicott (1963)  e M. Klein (1946) para inferir que quem mais perderia seria o próprio aluno, já que o ambiente se tornaria persecutório e estes teriam que lidar com angústias primitivas.  E como se sentiriam os professores submetidos a essa lei imposta autoritariamente, enquanto deveriam ser eles os representantes da autoridade dentro da sala de aula?

Para sobreviver a mais essa insanidade, contemos com a dimensão do que há de mais especial na psicanálise: o poder de Eros, o respeito a todos os caminhos da sexualidade e o amor à verdade. Sigamos em frente tomando o PARTIDO DA VIDA!

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).