14.12.18 Observatório Psicanalítico – 79/2018

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo. 

Mais médicos, mais compaixão

José de Matos (SPRJ)

Sabe-se que a relação médico-paciente, cuja importância é enfatizada desde o início da formação médica, constitui, dentre os recursos terapêuticos disponíveis, aspecto fundamental a ser considerado na arte de lidar com o sofrimento imposto pela doença.

Freud intuiu essa importância ao fundamentar a transferência como representação dos cuidados maternos, e seus desdobramentos na constelação familiar, para a adaptação à realidade, superada a transitória paz do paraíso uterino.

Essas referências iniciais visam destacar a força do componente afetivo na fundamentação das relações humanas em termos de identificação primária, desde “A Interpretação dos Sonhos”, quando Freud definiu a energia libidinal como “cota de afeto” que impregna as precoces representações do seio materno. Essas representações constituem o elemento de coesão e ligação que viabilizará a superação da perda do aconchego uterino em direção à realidade do mundo objetal e suas inerentes necessidades e vicissitudes.

O aconchego materno, definido como maternagem por Winnicott, deverá configurar a integridade e higidez da evolução egoica em seu desenvolvimento no mundo e esse acolhimento reverberará em todas as situações em que existam figuras com função de integração e proteção.

Tem-se destacado que, dentre as aptidões para a carreira médica, a capacidade de sentir compaixão seria uma das mais importantes. 

Compadecer-se, isto é “adoecer junto”, configuraria a empatia com o paciente, em sua forma mais profunda e abrangente. No jargão psicanalítico, à identificação projetiva do paciente corresponderia a identificação empática do analista, viabilizando a necessária intersubjetividade, tão importante para definir a característica de “psicologia profunda” atribuída por Freud à psicanálise como processo de investigação e de tratamento da mente.

No que se refere ao projeto Mais Médicos, além de apreciações políticas ou até mesmo administrativas, há notícias de que aquela experiência, desde sua implantação, atendeu necessidades básicas em saúde abrangendo níveis de atenção primária, secundária e terciária. O escritor e documentarista Antônio Lino em seu livro Branco Vivo e em entrevista a Fernando Gabeira, teceu curiosos comentários sobre as peculiaridades de sua experiência em recônditos do Brasil onde o enfoque assistencial médico era compartilhado com influência e práticas assistenciais de líderes religiosos, curandeiros e figuras icônicas locais, testemunhando a extrema carência técnica e afetiva. Sabe-se que a doença propicia por si mesma uma situação regressiva que requer amparo e atenção como complementos terapêuticos.

Por esse viés, pode-se entender a sensação individual e coletiva de insegurança e desamparo das comunidades mais carentes e distantes e até mesmo de grandes centros urbanos desassistidos com a súbita e inesperada suspensão do Mais Médicos.

Ainda que a prometida reposição rápida daqueles profissionais venha a se efetivar, precisa-se levar em consideração a necessária elaboração do luto acarretado pela perda daquelas figuras com funções de resgate de uma maternagem tardia de proteção e integração social. Essa elaboração será importante inclusive para a recepção e adaptação da comunidade aos novos médicos que estarão chegando e que representam, ao mesmo tempo, uma substituição e um suprimento de algo que foi retirado sem maiores explicações e justificativas.

Dessa forma, além de mais médicos para suprir carências sanitárias inerentes a um pais de dimensões continentais com uma população caracterizada por diversidade cultural e social significativas, há necessidade de mais compaixão por parte do governo na atenção dedicada a essa população tão fragilizada em face de um mundo dominado por necessidades inerentes à dura realidade extra uterina e acentuadas por condições socioculturais desfavoráveis e contrárias aos interesses e necessidades dessa mesma população.

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