02.01.19 Observatório Psicanalítico – 83/2019

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

Jano

Beth Mori (SPBsb), Joyce Goldstein (SPPA) e Rossana Nicoliello (SPMG)

Júlio César, líder romano, fixou em 46 a.C. o 1o de Janeiro como o dia do Ano Novo. Os romanos dedicavam esse dia a Jano, Deus das portas, dos portões, das passagens, das entradas e saídas, das aberturas e fechamentos, da temporalidade.

Conta a lenda que Jano reinou de maneira pacífica, tornando-se também, o Deus da Paz.

Dotado de rara prudência, Jano é representado com duas faces orientadas em sentidos opostos, fazendo com que veja o passado e o futuro simultaneamente. Com seu duplo rosto exerce o poder tanto no céu quanto na terra, observando ao mesmo tempo Oriente e Ocidente. Jano tem poder sobre todos os começos, sendo também considerado Deus das mudanças, das transições, dos inícios, das decisões e das escolhas.

Apoiamos-nos em Jano para pensar sobre os velhos-novos tempos. 

Repetimos alguns gestos no instante da virada do ano: pular com o pé direito, comer lentilhas, soltar fogos de artifícios, acender velas e luzes, jogar flores no mar. Nesse momento, somos dominados pela magia do sentimento de esperança diante do novo ano que se apresenta. Nos despedimos do velho ano vivido, experimentado em suas facetas de dores e alegrias, envoltas em incertezas.

Primeiro de Janeiro de 2019. Um novo tempo…

Heidegger nos remete à experiência como uma vivência significativa que nos acontece, nos alcança e que se apodera de nós. Algo que nos tomba e nos transforma. “Fazer uma experiência” significa: sofrer, padecer, tomar o que nos alcança receptivamente, aceitar… deixar-nos abordar em nós próprios pelo que nos interpela.

Para que as vivências se inscrevessem como “experiências” e ganhassem expressão de vida, demandaram o acolhimento do dispositivo OP – Observatório Psicanalítico – uma rede de espaço do acontecer, criar, estabelecer vínculos e promover transformações.

O OP, no diálogo da psicanálise com outros campos de saber, propicia um espaço de interação com os acontecimentos sociopolíticos e culturais. Busca acolher aquilo que culturalmente produz encanto, sofrimento, impacto e tantas outras emoções. Através do sentir, pensar e dar a voz pela palavra escrita, promove reflexões, ponto de partida para possíveis transformações.

Em 2018 alguns fatos, eventos, no Brasil e no mundo mereceram esse olhar psicanalítico. Produzimos 43 textos – quase um por semana – que, uma vez públicos, possibilitaram aos leitores conhecer o pensamento psicanalítico dos colegas sobre estes acontecimentos. Transitamos por temáticas de amor e ódio, e a diversidade de pensamento nos possibilitou o exercício da ética, da tolerância, do respeito mútuo.

Nós analistas trabalhamos (no consultório e fora dele) com tudo que impacta o nosso tempo. Sabemos que mudanças fazem parte da vida. Vida e morte estão presentes e somos convocados a lidar com as transformações dos acontecimentos que se apresentam para nós.

Inseridas neste pensamento de  “fazer acontecer uma experiência”, Rossana Nicoliello – presente no OP com suas importantes reflexões e contribuições – passa a compor a equipe de coordenação do Observatório Psicanalítico da Febrapsi, com Beth Mori e Joyce Goldstein.

Nós três seguiremos entusiasmadas com o compromisso de manter o olhar psicanalítico atento ao que atravessa nas nossas vidas para intervirmos nas mudanças do nosso tempo. Desta maneira esperamos contribuir para a constituição da subjetividade contemporânea.

Invocamos, então, o antigo Deus romano para que ele abra os novos caminhos. Afinal, nessa metáfora pagã, Jano é o iniciador da vida humana, de novas eras históricas, da transformação de uma condição para outra, da barbárie à civilização. Augúrios oportunos para os tempos que correm.

Desejamos a todos um Ano de muitas realizações.

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).