11.01.19 Observatório Psicanalítico – 85/2019

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

A Igreja no Ministério 

Marina Kon Bilenky (SBPSP)

“Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Com essa frase, Bolsonaro inaugura seu governo. Conhecemos as atrocidades cometidas em nome da igreja e das ideologias absolutistas. A moralidade, nessas condições, conduz inevitavelmente a uma visão parcial da realidade. A adesão cega a uma ideologia implica em alienação, conduz à morte do pensamento.

A indicação de Damares Alves para a pasta da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos foi mais um passo de reafirmação dos ideais conservadores e religiosos deste governo.

Com suas declarações enfáticas e polêmicas, a nova ministra provoca fortes reações nos públicos mais diversos. Pastora, defensora de pautas radicais, militante contra o aborto, defensora da bolsa estupro, pró-evangelização dos índios, contra o feminismo, surpreende quando assume algumas posições alinhadas com a contemporaneidade: “Se precisar, estarei nas ruas com as travestis, na porta das escolas, com as crianças que são discriminadas por orientação sexual”. “Se depender de mim vou para porta da empresa que o funcionário homem desenvolvendo papel igual à mulher está ganhando mais. Acabou isso no Brasil”.

Seus relatos sobre a visão de Jesus no pé de goiaba, sobre os abusos de que foi vítima dos 6 aos 10 anos de idade e o tamanho de seu sofrimento, deram algum contorno, entre risos e consternação, à sua figura controversa. A decisão de dedicar sua vida à defesa dos grupos mais vulneráveis da sociedade foi uma consequência de suas vivências. Tornou-se pastora, advogada e educadora, identificando-se com as minorias perseguidas, sem voz, com aqueles em situação de risco. Seu posicionamento em relação a estas mesmas questões, porém, sofre críticas da parcela laica da população.

As falas da pastora se misturam às da ministra e formam imagens contundentes, com forte apelo emocional que ganham grande repercussão na mídia. Ao ocupar tantas manchetes, ela rapidamente tornou-se alvo de emoções violentas, entre fatias da população que louvam suas ideias tradicionais conservadoras ou aquelas que não conseguem deixar de ridicularizar falas que consideram grotescas diante das conquistas sociais que vêm ganhando espaço nos últimos anos.

Treinada na arte de pregar, ela sabe manejar grandes públicos. Suas declarações viralizam. A perguntas complexas, nossa ministra responde com afirmações cartesianas, sem apontar para a possibilidade da dúvida e desperta, dessa maneira, reações apaixonadas: raivosas, irônicas, humoradas e ridicularizações. É difícil preservar um pensamento reflexivo diante desse tipo de exposição e nos vemos, em um primeiro momento, sem pensar, reagindo sem mediação àquilo que a fala nos provoca.

Com falas que versam sobre príncipes e princesas, rosa e azul e vamos acabar com a ideologia de gênero nas escolas, Damares faz afirmações categóricas, que remetem a uma ideologia que dominou nossa sociedade durante muito tempo.  A ideologia heteronormativa é tratada por ela como a realidade dos “fatos biológicos”.

A psicanálise nos ensina que nada é cartesiano em relação à sexualidade humana. Nosso trabalho diário nos coloca em contato com a bissexualidade, levanta os véus da heteronormatividade e revela configurações sexuais as mais diversas e improváveis. 

Sabemos, desde Freud, que o psiquismo se constrói a partir da demanda de trabalho gerada pela sexualidade e seus excessos. Também tratamos diariamente da complexidade dos processos identificatórios e da construção de um mínimo de contorno para um Eu sempre frágil diante das imensas reivindicações pulsionais internas, da moralidade e das forças que advêm da realidade externa. Aqui, não há espaço para o simples.

É preciso um grande trabalho intelectual e emocional para nos darmos conta das ideologias, crenças e valores que nos foram incutidos, principalmente no período da infância. Eles permanecem presentes em nossa mente, como modelos de funcionamento e muitas vezes como verdades inquestionáveis. A psicanálise entre tantas outras disciplinas tem tido um trabalho incansável para desvendar esse processo e revelar a força dos valores culturalmente transmitidos, que nos modelam antes que possamos percebê-los.

O estudo sobre a diversidade, a possibilidade de dar existência à alteridade, o questionamento a respeito de nossas antigas certezas exige trabalho, aprofundamento e uma real intenção de abertura ao novo e ao desconhecido. Diante destas questões, os papeis sociais mudam, nossa inserção social se transforma. Ainda não sabemos para onde estamos indo e não conhecemos nosso ponto de chegada.

Por outro lado, a religião responde de forma simples e clara às principais questões da humanidade. Basta que acreditemos em seus dogmas. A religião oferece um pai forte e poderoso, que se assemelha ao pai da primeira infância e que garante a proteção. Ela dá respostas simples para as perguntas mais complexas e apresenta um mundo com poucas contradições. Pode ser um bom antídoto contra a angústia gerada pela complexidade e imposição de trabalho de pensamento exigido pelo mundo contemporâneo.

Estamos diante de um Brasil dividido. Depois de um período em que houve espaço para questionamentos das ideologias vigentes, em que as minorias começam a ser ouvidas, somos assaltados na contramão por uma nova onda repressora.  Enquanto uma parcela da população se revolta, outra parte se sente finalmente representada pela volta de um discurso tradicional e contra o politicamente correto. Um homem comum é chamado de mito e uma pastora evangélica é ministra da pasta da mulher, da família e dos direitos humanos. Diante dessa nova situação, muitas vezes me sinto vivendo um futuro distópico com colorações de “O conto da aia” de Margaret Atwood, que retrata um mundo estranho e sombrio, dominado implacavelmente por uma ideologia religiosa.

Nossa pastora e atual ministra passa por cima e ao largo das discussões contemporâneas. Tudo parece simples e ela não considera que há contradições em seu discurso. Faz suas afirmações com a ênfase daqueles que não duvidam de suas próprias verdades e revela uma visão de mundo restrita e modelada pelos dogmas religiosos a que se agarrou e que foram incutidos ao longo de sua vida. Quando chamada a se colocar diante dos riscos que sua dupla inserção carrega em si, afirma de forma enfática que pode separar o humanismo que defende do viés ideológico: “Quem está assumindo este ministério é uma advogada e militante dos direitos humanos. A pastora fica lá na igreja, no domingo”. No momento seguinte vem com outra pérola: “O Estado é laico, mas esta ministra é terrivelmente cristã”.

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