27.01.19 Observatório Psicanalítico – 87/2019

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

Gênese da mente destrutiva

Henrique Honigstejn (SPRJ)

Através do diário do ministro da propaganda nazista Goebbels (Goebbels, J. (1995) Die Tagebücher Von Joseph Goebbels – Teil II – Band – 1 a 15.. K.G. Saur ; München / (1992) Tagebücher -1924 – 1945, Band – 1 a 5, Piper – Verbag; München ), procuro entender algo sobre a gênese de uma mente que tem como seu grande vitalizador o ódio, junto dos movimentos emocionais que levam a que se sustente e se intensifique esse funcionamento.

Em seu diário encontro desde logo trechos expressivos:

01- 7 de abril de 1929: “Eu tenho medo como os filhos dos judeus”

02 – 7 de dezembro de 1929: “Tive um sonho singular: eu estava em uma escola e era perseguido através de vastos corredores por muitos rabinos da Galícia Oriental. Eles me gritavam sem parar: ódio. Eu estava adiante alguns passos e respondia com o mesmo grito. Assim por horas. Mas eles não me pegavam. Eu sempre estava alguns passos adiante. Isso é um bom presságio?

Em dezembro de 1930 escrevera a respeito da projeção boicotada pelos nazistas de “Sem novidades no Front ”: “Em dez minutos apenas, o cinema parece uma casa de loucos. A polícia é impotente. A multidão estimulada, se dirige aos judeus…fora os judeus… os judeus são pequenos e feios.”

Goebbels nada tinha do ideal ariano pois não era um belo atleta gigante loiro, de olhos azuis. Um problema grave numa das pernas o tornou manco. Era muito magro e o mais baixo entre os líderes nazistas. Essa ferida narcísica, parte de um todo, resultou em momentos que descreveu:

“Ano Novo… meu coração está tão pesado nessa hora. Dreck (merda) em mim e a minha volta”. (2 de janeiro de 1926)

Penso que Goebbels atingiu em seu desenvolvimento emocional a condição de diferenciação eu – não eu de um modo precário, não tendo em seu self uma estrutura que lhe permitisse a autoconfiança. O objeto que deveria estar presente nele como um selfobjeto estruturante e assim convidá-lo a circular no mundo, marcou-se nele, a meu ver, como um objetor, uma presença objetora, contrária ao ser.

Assim, o mundo surge para ele como anti e em lugar do encontro, ele passa a sentir um impulso à eliminação. Isso é bem expresso em seu diário, em 10 de novembro, ao descrever a explosão do ódio que foi a Noite de Cristal:

“Eu estava para voltar ao meu hotel, quando vi o céu se tornar vermelho sangue. A sinagoga queimava. Não fizemos estender os incêndios em função das construções alemãs da vizinhança. Senão, deixar queimar. Os despachos chegam agora do conjunto do Reich: 50, depois 75 sinagogas queimaram. Assim que retorno ao hotel, vidros voam em explosão. Bravo, bravo… procuro dormir algumas horas.”

O terror é projetado. O ódio estimulado ao paroxismo lhe dá o revestimento não dado pelo amor, fazendo com que experimente o que um paciente, certa vez, descreveu: “Chamo o ódio, meus músculos ficam duros e eu me sinto forte”.

O ódio como tônico do self. E assim também o efeito do contato com Hitler: “… sinto-me como uma bateria que foi recarregada”.

Goebbels vai se abalando pelas “ fraturas” de seu ideal e se apoia nas palavras que ganham poder mágico: Vernichtung (destruição aniquilamento); fanatisch, Radikaler Krieg, Totaler Krieg (guerra total) a todas as horas marteladas, buscando desesperado uma ressurreição.

O que possibilita a alguém sob cargas pesadas de ódio, levantar-se e voltar a afirmar: Existo?

Freud lança uma resposta: “Preenchido pela relação excepcional do filho judeu com sua mãe, bem alimentado pela certeza que lhe aporta esse amor maternal que é a fonte do sentimento de eleição” (Conferência de Freud em 16 de fevereiro de 1915- Sociedade B’nai Brith).

E aqui, acrescento: e da condição de persistir em seu ser, sentindo-se ligado a uma fraternidade que continua.

A fraternidade, expressão de Eros circulante, leva a meu ver, acréscimo de vida aos que experimentaram. É como se uma vacina portadora de um vírus mortal acordasse sistemas imunitários ainda adormecidos.

Quando digo a meu ver, não é mera suposição, é a experiência vivida por conhecer e conviver com aqueles que em 27 de janeiro de 1945, foram libertados pelas tropas soviéticas dos campos de concentração, fato para sempre lembrado como o Dia Internacional do Holocausto.

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