06.03.19 Observatório Psicanalítico – 96/2019

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

Instinto, civilização, e emoções: quando o mais é menos ou o mesmo 

Sylvain Levy (SPBsb)

É estranho, se não fosse humano, um pensamento corrente que a humanidade passa por momentos trágicos e perigosos. Onde o ter suplanta todo o resto. Ter riqueza, ter conhecimento, ter poder. Ter supremacia sobre o outro. E quando não foi assim?

Certamente datas como 28 de junho de 1914 (assassinato do arquiduque Ferdinand da Áustria) e anos como 1933, com a ascensão de Hitler, 1939 com a invasão da Polônia e 1945 com as bombas atômicas podem ser considerados mais tristes e marcantes que o conjunto desses seis últimos anos. A humanidade não mudou como, por exemplo, mudou o clima. Mas as tecnologias sim, expondo com maior rapidez e oportunidade as diversidades de opiniões que essas mesmas tecnologias difundem.

O homem desceu da árvore e se tornou bípede há quatro milhões de anos. Desses, apenas nos últimos 6.000 anos houve a tentativa de algum regramento, considerando-se no início desse período, a civilização Suméria. Mas é aceito que o primeiro código de leis escritas é o de Hamurabi, da Babilônia, estimando-se sua edição no século 18 antes de Cristo. Ou seja, apenas de 0,15 a 0,045 do tempo ‘’humano’’ pode ser compreendido como tempo civilizatório, naquilo que Freud definia como necessidade de proteger o governo dos homens, os homens do governo e o homem de outro homem.

O restante dos tempos é instinto, sem ou com um mínimo de recalque construído mediante uma realidade ‘’natural’’ ou da natureza. Era muito mais a supremacia dos instintos básicos de luta e fuga, de sobrevivência e preservação – individual e da espécie, do que àqueles relativos ao comportamento social propriamente dito, ainda carregando, em sua caminhada evolutiva, uma “quantidade” muito menor de condutas de respeito ao outro, de respeito à sociedade, de fraternidade e solidariedade, o que pode ser chamado de verniz civilizatório.

Num modelo extraído da natureza é o equivalente a uma fina casca de seis centímetros, contrastando com o interior de uma imensa árvore com 40 metros de circunferência de tronco “in natura”, bruto em sua constituição e em sua manifestação.  

Olhando apenas para o Brasil dos últimos 6 anos, de 2013 para cá, pode ser constatado um aumento nas manifestações públicas de expressões de ódio, intolerância, medo e repulsa ao pensamento e atitude do outro. O pensamento único, que há alguns anos vem se impondo na economia, está alcançando outras áreas da sociedade, como a previdência, a assistência social, o trabalho e o emprego.

Na última semana de fevereiro dois fatos marcaram essa tendência. A des-nomeação de Ilona Szabó e o aviltante twitter de Eduardo Bolsonaro sobre a morte do neto do Lula.

A luta pelo poder vai se transformando no que sempre foi: a eliminação do outro, por alguma das formas pelas quais o poder se manifesta. Força, dinheiro, fé, lei, hierarquia, ideologia e afetos.

Tendo essas ideias como pano de fundo recorro a outra área do conhecimento para entender um pouco mais esses fenômenos.

Tanto o materialismo dialético de Hegel, como o materialismo científico de Marx e Engels consagraram o princípio que a quantidade altera a qualidade. Nos processos sociais sempre se defendeu a ideia de que o indivíduo com mais conhecimento modifica seu valor grupal e tem maiores oportunidades de se transformar de individuo em cidadão. O aumento da quantidade de cidadãos conscientes transforma uma massa popular de manobra de demagogos e populistas em massa crítica de uma sociedade mais participante e participativa.

Acreditamos que na psicanálise o aumento do conhecimento de si mesmo muda a qualidade da pessoa.

Na química, a tabela periódica dos elementos é, provavelmente, o mais vistoso exemplo desse princípio. A tabela explicita que todos os elementos são constituídos por átomos. A qualidade de cada um se modifica à medida que cada um vai incorporando íons positivos -próton, ao seu núcleo. Simplificando, com um próton no núcleo o átomo é de Hidrogênio, com dois é Hélio, três é Lítio e assim por diante.

Podemos pensar que o princípio geral da quantidade modificando a qualidade se aplica a átomos, a pessoas, ao conhecimento. Se assim é, porque não às emoções?

O “sal” básico de algumas emoções e sensações é o mesmo, o que altera sua qualidade é a quantidade em que cada qual é sentida. O narcisismo presente na vaidade é o mesmo na arrogância. Sua quantidade é que pode modificá-lo.

A sensação de fome (saciável) teria os mesmos elementos que a gula (por definição insaciável).

A ambição se transforma em ganância.

O amor em paixão.

O medo em pânico

A raiva em ódio e daí à ira.

A necessidade de acertar se transmuta na exigência da perfeição.

O bom se obriga a ser ótimo e caminha para o ideal.

Ao ser aprisionado nesse modelo, a necessidade de ter alcança o ser e o resultado é o que se observa hoje. Mas é óbvio que existe esperança, pois também existe a indignação.

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).