22.03.19 Observatório Psicanalítico – 99/2019

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

Cultura e educação nos ministérios de Bolsonaro: o mal-estar na civilização revisitado

Luciana Saddi (SBPSP)

No ensaio O mal-estar na civilização (1929), Freud examinou o irremediável antagonismo entre as exigências dos instintos e as restrições impostas pela civilização. Concluiu que a coerção pulsional cobra elevado preço do homem, induz à culpa e infelicidade e nem pode garantir a estabilidade ou permanência das civilizações.

A história do processo civilizatório brasileiro não é diferente. Desenvolvemos formas próprias de mal-estar, algumas delas ligadas aos processos de colonização, escravidão e formação do patriarcado. Estruturas arcaicas compõe o lado avesso do tecido social e, agora, estão estampadas nos sofrimentos presentes.

O Brasil tornou-se Republica e, portanto, herdeiro dos princípios da Revolução Francesa e do Iluminismo, embora, a incorporação destes e de outros princípios tenha acontecido de maneira bastante típica como afirmou Roberto Schwarz no ensaio, As ideias fora do lugar.

Fonte de referência para Schwarz, em Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis descreve a postura do antigo agregado de Iaiá Garcia que assumiu o ponto de vista dos senhores de escravos. Ao, mesmo tempo, caracteriza o grupo senhorial, dependente da escravidão, que incorporou referências ideológicas europeias oportunamente esvaziadas do sentido original. Celebra-se o paradoxal casamento entre liberalismo e escravidão. O liberalismo desprovido de caráter universal transforma-se em ideologia de segunda classe e passa a defender os interesses patriarcais. Está, portanto, encenada a “comédia ideológica”. 

Atribui-se “independência à dependência, utilidade ao capricho, universalidade às exceções, mérito ao parentesco, igualdade ao privilégio”, e pode-se acrescentar cultura à ignorância e verdade à mentira.

Hoje, depois de anos de crise social, econômica, política e institucional, instala-se a desilusão seguida do clamor pela restauração da ordem com o colorido característico de As ideias fora do lugar. Clama-se por violência desmedida como método de combate ao crime organizado. Certos governantes até sugerem que agentes de segurança estariam liberados para eliminar suspeitos, sem o devido processo legal, orientação que veste o figurino da desordem em nome do resgate à decência, à ordem da Nação e retomada do progresso. A população, agora armada, poderá combater bandidos como se a ela coubesse o papel do estado na segurança pública. Paradoxos como esse tornam-se comuns nos dias de hoje e atestam a concordância com o pensamento de Schwarz.

O reprimido retorna poderoso. O apelo para que o regime da Sociedade Patriarcal volte a imperar entre os brasileiros não é alheio aos psicanalistas. Fracassos reais e imaginários, crises, perdas e frustrações liberam fantasias regressivas. O suposto e mágico poder curativo do antigo, prenhe de nostalgia, ressurge como espectro de fantasmas idealizados.

E então, fomos surpreendidos pela aparição de Bolsonaro, concebido nos porões da ditadura, renasce das raízes profundas do inconsciente coletivo machista e patriarcal brasileiro. Livre da repressão vocifera com orgulho impropérios machistas, misóginos, racistas, homofóbicos, além de prescrever o retorno à ditadura militar e à tortura como instrumento de controle político e social. Não há vergonha ou culpa. Bolsonaro e seguidores vão ao êxtase por meio de declarações bizarras.

O reprimido, ao retornar, como farsa e sintoma, agrava o que pretendia curar. Está distante de representar conjunto de proposições racionais para o saneamento dos problemas nacionais.

O pai todo poderoso, mito, messias, o que manda e protege os filhos da pátria se tornou esperança, de significativa parcela de brasileiros, para liderar a busca de soluções dos graves problemas da nação. Em nome da guerra contra a corrupção Bolsonaro pretende ser a lei. A multa recebida do Ibama, por pescar em área de proteção ambiental, é suspensa. Acusa-se de excessivo o sistema de proteção do meio ambiente. Quer ser absolvido, ele que portava vara de pesca nessa área. Assim é no patriarcado. O pai, o patrão jamais se submete a lei. Seu desejo é ordem. Seu desejo é lei. A corrupção e o nepotismo que deveriam ser combatidos no seu governo, forte e justo anseio popular, insistem em reaparecer junto ao clientelismo e favorecimento de grupos ou pessoas. Exatamente o que sempre se criticou nos governos anteriores. Teria sido útil e pedagógico que o presidente tivesse pago a multa, e assumido responsabilidade e culpa, como todos os cidadãos da República devem agir. Mas aí as ideias estariam no lugar, e seriamos como uma sociedade nórdica.

Examinemos agora o episódio do fim da obrigatoriedade da bibliografia nos livros escolares, ocorrido no ministério da educação. Aqui não há apenas ignorância sobre o sistema de produção de conhecimento, o que por si é grave sinal, mas também se acusou o ministro anterior de tal resolução, o que revela péssimas maneiras e má-fé. Descoberto o erro, assumi-lo seria o mais racional, mas imputá-lo aos ocupantes anteriores da pasta foi a saída escolhida pelo ministro para, em primeiro lugar, se desresponsabilizar, atitude tipicamente infantil. Escolher e nomear um bode expiatório foi a estratégia que substituiu uma nota de intenção de reparar o erro. Esse momento de deseducação veio junto com algo ainda mais absurdo, a liberação de propaganda em livros escolares. Qual grau de civilização, que você caro leitor ou leitora, perceberia nestas decisões? A propaganda para crianças deve ser legitimada nos livros escolares distribuídos pelo ministério da educação? Sob a iniciativa de proteção à infância brasileira e restauração dos valores morais libera-se a propaganda em livros escolares. Novamente, a culpa é do ministro anterior?

Outra preciosidade é a equiparação do ensino da teoria da evolução ao criacionismo em aulas de ciência com a finalidade de melhorar a qualidade da educação sob o manto de argumentos anômalos: até Eisntein acreditava em Deus; numa prova se pode escrever o que é considerado certo, mas não aquilo que se acredita, trata-se de flagrante violação pessoal. Imaginemos essa lógica em provas de matemática? Aqueles que reclamam da falta de leis universais, regras para todos, os que com justiça pedem o fim da corrupção, pedem a abolição das regras educacionais de aprendizagem de conteúdo, extensivo a resposta em provas. A intenção é transformar o ensino em algo que legitime, não o conhecimento, mas algum saber particular; narcisismo de se deleitar com as próprias verdades, loucuras e ignorância.

Os exemplos não são muitos no presente texto, já há inúmeros outros em algumas semanas de governo, para poupar o leitor. O que importa é demonstrar que há uma regra. O absurdo que se revela, a insensatez e a inversão. A se confirmar a tendência a cada semana surgirão novos disparates, ideias fora do lugar, produzidas pela doutrina bolsonarismo. Triplicar o salário do filho do General Mourão (vice-presidente da república) no Banco do Brasil faz parte do fim do nepotismo e aparelhamento do Estado. Os malabarismos mentais para ajustar ilusão à realidade têm induzido muitos brasileiros a retirar peso das palavras do presidente. Como são erráticas, as palavras de Bolsonaro – o messias – não devem ser levadas em conta. É o primeiro Messias em quem não se pode confiar!

Pelo estado atual da vida brasileira acredito desnecessário o Ministério da Cultura. É melhor escondê-lo em alguma secretaria, reduzir dotações e distribuir o que resta a bajuladores e apoiadores do mito, tudo isso, é claro, sob o mantra do infindável e elogiável combate à corrupção. O ministério perde a razão de existir num país que professa ignorância, má-fé e má educação com orgulho. Pelo ritmo do féretro, em breve, o sentido da palavra civilização e sinônimos como progresso civilizatório, educação, avanço tecnológico e até o politicamente correto – precocemente extinto em pronunciamento do ilustre presidente Bolsonaro – também alcançarão o túmulo. Da outrora variada cultura nacional pode, talvez, sobreviver, o samba do criolo doido, se tanto.

Mas, há exceção, selo indispensável, à confirmação da regra contida nas ideias fora de lugar. Talvez o presente julgamento seja algo exagerado. Pois, o ator pornô, Alexandre Frota ao assumir o papel de fiel representante da nova Cultura do novo Governo coloca tudo no lugar. Constatou-se algo tão justo e certo, ausente de contradição. Afinal, a pornografia é, em geral, a quinta-essência do raso, achatado, vulgar e chulo, transforma erotismo em performance física acompanhada de narrativa pobre e repetitiva. Retira mistério do encontro erótico. Sem tal embate o sexo humano se apresenta menos que animal, e, portanto, passa a pertencer aproximadamente à ideologia reinante.

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